sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Shangri-la



Na primeira vez que Te apelidei de Divina, riste-Te tanto, arqueando ironicamente a coluna de tal forma que os Teus olhos ficaram voltados para os céus. Na segunda vez que Te apelidei de Divina, gemias excertos do evangelho entre dentes, em torno dos meus dedos. Sempre Te quis surpreender ao surpreender-Te a Ti própria. Porque és um Anjo que oculta o seu nimbo atrás das costas e nada vivi de mais obsceno para além da forma como Te depenei as asas. Fodo como um serafim e nenhuma passagem das escrituras Te preparou para as minhas mãos. Mãos que cartografaram uma comunhão no berço das Tuas ancas. Mãos que entoaram hinos para o louvor das Tuas sinuosidades. Desta forma, recebi a Tua confissão sobre o tempo que aguardaste por um foco de veneração. Desta forma, capitalizei-Te de joelhos. E quando Te afundaste no chão, gemendo que não Te conseguirias refrear, questionei-me se os restantes anjos tombariam de forma tão doce e graciosa. Partilhei preces entre as Tuas coxas e rejubilei quando enrubesceste a cor da Tua língua devassa. Arruinei-Te e não só me agradeceste… como me suplicaste. Não existe memória de perdição tão aconchegante, pois encaixei nos Teus recantos como se houvesses sido criada para mim. No cimo deste corpo, serás sempre uma deusa ancestral, cuja humildade eternamente recordarei quando me brindaste com a Tua pele. E assim Te tomei.
Quem diria que o sacrifício seria algo tão profano?
Inevitavelmente, quando Te apercebeste que segurava a Tua garganta com uma mão e o Teu coração com a outra, esqueceste-Te de todas as palavras de todas as línguas… exceto o meu nome.


P.S.: Irei durante um par de semanas para a Índia.
Até breve...

Everybody's Got a Thing


Foodie… do


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Corpos Celestes



Entretinha-me espreguiçando a minha mão na sua anca. Ela, por seu turno, jazia o olhar em papéis, em datas… Amanhã, este fim-de-semana, a próxima semana, a próxima viagem em Março. Desassossegado, decidi fender o silêncio e proclamei:

«Em Março fazem 3 anos que a Dawn entrou na órbita de Ceres.»
«O quê?!»
«Dawn! A sonda que a NASA enviou para a cintura de asteroides entre Marte e Júpiter, para estudar o planeta anão chamado Ceres. Movia-se com propulsão a iões para atravessar o espaço, de modo muito mais eficiente que a propulsão química.»

Silêncio.
Olhares trocados.
A minha mão imersa em irrequietude.
Contudo, o seu olhar voltou a compenetrar-se na tirania da agenda.
«Onde queres ir no próximo verão?»

Aproximei-me ainda mais dEla, aninhei a sua mama na palma da minha mão e retorqui:
«A meio de Julho de 2015, a New Horizons atingiu o seu ponto mais próximo de Plutão.»

Contornei-A igualmente com o meu corpo e mordisquei-lhe um ombro.

«Não me digas que o Teu conceito de sedução é idêntico ao de Stephen Hawking.»

«Não preciso de Te seduzir.» Refutei, mordendo-A desta vez, com mais força, no outro ombro. «Já Te possuo.» Nova ferradela. «Talvez seja algo científico. Talvez sejas neste momento, a prova irrefutável do aquecimento global.» Baixei lentamente a minha mão, até chegar à órbita do tecido das suas cuequinhas. «Serás ou não serás?… Enquanto sondamos a resposta, lembra-Te sempre disto: quando olhas para o céu, na realidade encaras de frente o infinito abismo cósmico, tendo apenas a gravidade como amparo que Te firma na superfície desta Terra. Eu sou e serei a Tua gravidade.»

Sem Meias Medidas


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

De(u)saFogo



«Estrangula-me, por favor!»

Escutar aquelas palavras provocou-me algum desconforto. O desespero contido nas mesmas queimava-me. Na realidade, não era bem desespero… pois Ela era insistente. Súplica… sim, tratava-se de súplica. Um desejo em vez de uma necessidade. O problema não era a ação. A minha mão encontrava-se familiarizada com o seu pescoço… o meu polegar era íntimo daquela traqueia. Aquilo que me perturbava era a dissonância entre aquele rosto angelical e a respetiva fome por brutalidade. Observei-A. Ela encarava-me de baixo para cima, o Ser mais Doce no qual já pousei o olhar. Lábios entreabertos, como se fosse dizer algo, aguardando por uma mão que se insurgisse contra a sua garganta. Os seus olhos pestanejaram, do meu rosto para a ponta dos meus dedos e não pude conter um sorriso. Era diametralmente oposta a mim. Um reflexo de tudo aquilo que não representava. Uma Menina para o seu Homem. A primorosa delicadeza Feminina para a sobranceria perversa Masculina. Paciência expectante contra o Impulso contido. Uma Submissa para o seu Dominador. Eu não presumia conhecê-la, nem compreender as maquinações da sua mente, mas naquele instante seria mirífico poder escavar aquela superfície para enxergar as suas engrenagens.

Optei por irromper pela sua compostura, assentando uma mão contra aquele pescoço, como já o havia perpetrado inúmeras vezes. Apenas repousava a palma da minha mão, mas Ela arquejava de qualquer forma... de todas as formas. Então comecei a espremer. Queria registar a mutação de cada detalhe expressivo daquela face, à medida que o Desejo se rendia ao Desespero. A sua Vida, literalmente na palma da minha mão… e ambos irremediavelmente perdidos na Epifania do momento. Queria igualmente refastelar-me com o refolgo das suas feições no momento em que aliviasse a pressão… e com a sua gratidão pela minha convicção em aquiescer ao seu pedido.

Eu não presumia conhecê-la... mas conheço-me suficientemente bem.

Everybody's Got a Thing