sábado, 21 de dezembro de 2013

II


Aproveito para redigir as derradeiras palavras do ano no dia em que este recanto completa dois anos, pois reservarei os próximos dias para as azáfamas natalícias e para a preparação da viagem à Pérola do Danúbio, Budapeste.
2013 representa um dos anos mais importantes e evolutivos da minha humilde existência. Por este recanto em particular, pairou algumas vezes a possibilidade de encerramento, mas porfiei na manutenção desta extensa Missiva de Amor. Durante cinco dias por semana, grafo devoção, entrega, paixão e Amor infinito. Tive a fortuna de conseguir emudecer a estática de gentes vulgares e completamente à deriva que esbarraram comigo. E tive o privilégio de provar a Eternidade… nos Teus braços, na Tua boca, no Teu corpo. As palavras irão sempre arranjar forma de verter dos recantos mais sombrios e luminosos da minha mente. Dicotomias… daí escolher BudaPeste para culminar simbolicamente o ano.

A força poética de cada uma das minhas frases fervilha desde o meu âmago. Cada pontuação e cada maiúscula espargem sempre outro pedaço do meu ser, quando me rasgo em busca da frase perfeita. Então, provenientes de outro mundo, oriundos de outra dimensão assomam os fragmentos que necessito. Tudo começa com rabiscos que se tentam colar na esperança de algo magnificente. Até quando lavro na simplicidade de um guardanapo a complexidade do desejo criador de altear os dias da musa que se oculta nas entrelinhas das minhas composições. Tudo começa com rabiscos e termina no aventureiro que se desnuda nestas linhas, depois de sobrepujar os dolorosos monólitos que se apresentam no seu caminho. Sou mais do que um escrito… sou um escritor! Sou o salvador do Herói que reside em mim.












P.S.: Volto no dia 06 de Janeiro de 2013… por Ti! Minha Ninfa! Minha Heroína!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A Bela e o Monstro


Através das brumas nostálgicas da minha infância, despontam algumas cenas cristalinas que se revelam golfos de certeza no meio de um oceano de meias-verdades ambíguas e de assunções constitutivas cuja existência se deve mais concretamente a comportamentos contemporâneos do que propriamente passados.

Era uma manhã de Natal como tantas outras, onde o chão da sala havia sido substituído por papéis de embrulho retalhados e um distinto aroma a canela e chocolate inebriava os sentidos. A minha irmã criava cidades com os seus brinquedos. Sociedades operando no microcosmo do seu quarto. Construções dolorosamente belas e intrincadas que usurpavam ridículos quinhões de tempo para serem elaboradas com protagonistas silenciosos.
Para mim, aquilo era apenas um alvo. O primor imaculado era algo inconcebível. Algo que havia sido tão meticulosamente estabelecido e tão detalhadamente embelezado representava uma disposição intolerável para mim. Reproduzindo passadas de Godzilla, espezinhei aquela metrópole, arruinando-a. Eu era o terror.

Eu assimilo a Tua beleza, venero-a… mas não sucumbo ao lapso de a considerar intocável. Quero deslustrar-Te, de certa forma. Quero desafiar a Tua perfeição. Cuspir no Teu requinte. Manchar-Te… com um arranhão, uma nódoa negra, uma dentada ou com um marcador permanente. Quero deixar a minha influência em Ti. Quero deixar-Te com o meu cunho, de tal forma que não Te poderás recompor com facilidade. E se tal significar foder-Te violentamente, desabarei a Tua estrutura desde os Teus alicerces, reduzindo-Te a um monte de escombros de suor e sémen.
Por vezes represento terror, logo deverias fugir de mim. Contudo, por alguma razão, aproximas-Te sempre um pouco mais… com um meio-sorriso estampado nesse belo rosto... pronto a ser desmaquilhado.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Dissecado


Sonda a minha pele
E descobrirás
Que cada célula do meu corpo
Abriga memórias do Teu toque.
Sonda a minha mente
E descobrirás
Que cada pensamento
Carrega imagens das Tuas expressões.
Sonda os meus pulmões
E descobrirás
Que cada sopro
Contém parte da Tua essência.
Sonda o meu esqueleto
E descobrirás
Que as ligações entre ossos, músculos e articulações
Albergam o Teu nome.
Sonda o meu coração
E descobrirás
Que cada batimento cardíaco
Sincroniza-me conTigo.
Sonda as minhas fundações
E descobrirás
Que represento um pedestal
Para imortalizar a Tua monumentalidade.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Brasão em Brasa


Tinha acabado de unir as duas pernas da letra “A”. Colocava a tampa no marcador e admirava a minha caligrafia. A palavra encontrava-se redigida acima do seu mamilo esquerdo e contemplava a tinta dispersando através dos seus poros, observando como o requinte do tracejado era surripiado pela sua pele. Capturei o meu lábio inferior e esbulhei-o um pouco.

«Linda…», engoli a palavra em surdina, mas foi o suficiente para quebrar o feitiço que a enclausurava, fixando a sua atenção no meu rosto, em detrimento da minha mão.
«Como?», sorria, abismada, mas satisfeita.
«Linda!»
Ela fitou a escrita, uniu as quatro letras, franziu as sobrancelhas e sorriu um pouco mais.
«Desde quando é que a palavra «Puta» é linda?».
«Desde que foi escrita em Ti. Servindo-me da Tua pele como pergaminho. Não gostas?».
Gracejava um pouco com Ela e reconhecia a razão pela qual ruborescia quando fitava a minha marcação, como se em vez de uma declaração houvesse conspurcando a sua delicada pele com uma acusação. Havia uma mescla de inquietação e excitação nas faíscas que seus olhos coruscavam.
«Gosto… mas…», encolhia os ombros, «É embaraçoso…»

Supri a distância entre os nossos corpos, clamei o seu queixo com a minha mão, reivindicando a direção do seu olhar.
«Não, não é! Não é embaraçoso, nem pode representar vergonha, pois é uma exortação exclusiva para os nossos olhos. Não foi grafada para Te zombar enquanto traste se alguém tivesse o privilégio de rasgar a Tua blusa, despir o Teu soutien e constatar o vocábulo.», pausei para intensificar o olhar. «O objetivo não é transtornar-Te. Aliás, é justamente o oposto! Ou seja, sempre que Te sentires triste, desconsolada, abandonada ou sozinha, tira uns segundos para Te isolares. Encontra um espaço privado, desaperta as Tuas vestes e lê o que Te escrevi… relembra o que Te escrevi. Desejo que sintas o meu controlo e o meu amparo, apesar da distância que nos separe nesse instante. Desejo que a recordação Te restaure o equilíbrio, esboce um sorriso e provoque um menear especial nos Teus passos.»

Agora foi a sua vez de mordiscar o lábio. Desviou o seu olhar do meu, olhou para a sua mama e encarou aquelas quatro letras de pernas para o ar, sem a certeza de querer decifrá-las. Talvez estivesse em negação. Todavia, quando interiorizou o que lhe havia dito e sobre como o havia dito, consolidou a seriedade do significado da minha brincadeira. Não se limitou a constatar a palavra «Puta»… isso eram apenas letras na periferia. Passou a sentir o peso do poder da minha presença alojado naquelas quatro letras, alinhavadas em maiúsculas, atuando como uma mão firme no seu ombro, como uma garra íntima no seu pescoço.
Já não se sentia embaraçada.
Sentia-se segura.
Sentia-se amada!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A Queda de uma Certeza


Gosto de levar o meu tempo pelos engenhos da incerteza. Gosto de criar surpresa, deslumbramento, enlevo, espanto. Possuir-Te enleada na cama, com sorrisos ou carpidos, sem certezas, mas apreciando os maravilhosos subterfúgios do inesperado, entregue aos meus caprichos. Contudo, apesar de toda a pompa e circunstância, há um momento em que sou suplantado. Quando toda a planificação voa pela janela e quedamos na nudez da incerteza física. A questão sussurrada se continuamos ou definhamos, exalando todo o fôlego da refega.

Esse momento aflora quando Te encontras no terceiro ou quarto arrebatamento orgástico. Quando o Teu corpo é levado à borda do precipício, resvalando na queda livre da perdição. Quando cada golfada de oxigénio é arrancada dos céus e as unhas se cravam na pele involuntariamente. Esse momento encerra pânico. O prazer é descomedido. Deixa-Te sem noção se aguentarás outra descarga elétrica. Mas desejas outra mais. Então quedas-Te, ofegante, de sobrancelhas franzidas e olhos suplicantes, macerando a questão em surdina. Mais? Queres mais?
Veremos…

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O Leito da Leitura


Uma Mulher não é escrita em Braille. É imperativo tocar-lhe… é crucial usar múltiplas formas de leitura… mas não é necessário tocar-lhe para a conhecer. Podemos viajar pelas suas curvas, pescar nas suas pontes, contemplá-la a emergir ao encontro da Luz, mas nunca conheceremos um Rio até sentirmos a sua corrente envolvendo a nossa pele, submergindo-nos, ameaçando-nos com as suas profundezas. Não… não precisamos de tocar numa mulher para a conhecer, mas precisamos de estar dispostos a receber o seu toque. Precisamos de estar dispostos a naufragar.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

LAReira


Desejo-Te,
Em dias como este,
Quando tens frio,
Quando puxas as Tuas mangas
E enrolas os Teus dedos,
Até esconderes as mãos no interior do tecido,
Espreitando o mundo exterior.

Desejo aninhar-me nesse local,
ConTigo,
Nessa caverna de lã,
Escondido entre os Teus dedos,
Circunscrito pelo Teu calor,
Torneado pela Tua pele,
Abandonando o mundo frio,
Pela escuridão do Teu toque,
Pela fornalha do Teu abrigo.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A(d)Estrada


A ponta dos meus dedos rasou os Teus mamilos com indiferença polida. Confundindo a sensibilidade dessas protuberâncias sobre a minha real execução. Seria um beliscão? Seria um puxão? A sensação dispersava uma noção de intentos e o Teu corpo reagia ajustadamente. Fechaste os olhos, contorceste-Te, revolveste as ancas e mordiscaste o lábio inferior.
Os meus dedos ensaiaram uma nova passagem. Estremeceste, num arrepio de alto a baixo, legando a sensação como um telegrama, diretamente aos espasmos dos Teus lábios vaginais. Latejaste… com um baque trepidante que afrontava as Tuas fundações. A trepidação embrulhou-se com a antecipação, num alvoroço caótico que apenas poderia ser aquietado pelo próximo passo. Parecias desejar proferir algo… sempre aparentavas desejar proferir algo. Talvez uma tirada mordaz ou um floreado espirituoso… algo que me desenhasse um sorriso maroto, ou ainda melhor… algo que me fizesse baixar a guarda, pausando por um segundo. Talvez desejasses vislumbrar uma reação na compostura plácida, gerando ondulações na superfície serena do meu comportamento. Todavia, por vezes o intento não se traduz em frases. Permaneceste silenciosa, porventura receando um tropeção. Preferiste rastejar no tempo, perdida nos Teus pensamentos.

A dor foi inesperada. Os meus dedos, resolutos, espremeram-Te com veemência tal, que desejava despertar-Te com a sensação das minhas impressões digitais escavando a firmeza da tez dos Teus mamilos. Era a consumação do embuste, mas a tortura era a torção… os punhos girando em sentidos opostos, emparelhados no reflexo da atividade e da incitabilidade.
Gemeste. Inevitavelmente drogada. As pupilas chocalhavam languidez. O Teu cérebro encontrava-se irrigado com endorfinas suficientes para suprimir tudo o resto além dos pensamentos na Tua mente e das sensações na Tua pele. Palpitações elétricas faziam-te comprimir as coxas, submergindo-Te no fundo do oceano… ou ancorando-Te num asteroide que vogava pelo espaço. De qualquer forma, ficas atracada na certeza de que jamais poderás dizer que não Te levo a viajar.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Rastro


Havia marcas nos seus braços. Sulcos. Vincos de paixão que descreviam círculos concêntricos ao longo dos seus braços. Uma impressão esculpida em espiral pelo abraço compressório no qual a havia tentado fundir consigo. Depois, assomou uma pontada ao longo do seu rabo. Suave, entorpecida… mas quando se sentava ou movimentava, aquela ferroada aflorava resplandecente, tal como o dia no qual lhe foi ministrada. Ela sentia que existia menos pele e carne entre o mundo e os seus nervos.
Palavras… também flutuavam pelo éter algumas palavras lânguidas. Meia dúzia de sons inarticulados, adejando letras como fragmentos de uma explosão. O universo parecia um código e quando se sentia rebocada pela sua gravidade, tentava decifrar o espólio da batalha. Ele e os seus dedos continuavam na sua garganta. O polegar mantinha sob ameaça a sua traqueia, pronto a barricar-se naquela passagem vital. O resto dos seus dedos serpenteava pela linha do seu maxilar e Ela apenas tinha de tocar na pele que servia de trilho para recobrar a sensação de alívio, retomando o fôlego.

Aqueles detalhes representavam mais do que meros lembretes. Eram evidências! Suas testemunhas. Um coro de vestígios que entoava devassidão, assinalando locais de passagem. Tocar-lhes era recordar… e validar! Ratificar a realidade do ato… e a possibilidade de réplicas futuras. As marcas eram uma promessa.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Nostalgia


Havia feitiço na contemplação. As sensações eram caprichadas pelo arremesso involuntário das ancas, pela destreza da sua língua, pela fricção de toda a extensão, pela reverência labial… mas havia sortilégio na observação.
Ali, a depravação atingia píncaros, observava como os lábios dEla embrulhavam a sua glande e como aqueles olhos lhe miravam em contrapicado. Ele poderia congeminar mil pensamentos atrás daquelas pestanas, cada qual denunciado pelo subtil sorriso que Ela ostentava, apesar da forma como lhe alojava bem dentro daquela boca cálida. Era uma noção forasteira, colocar-se como recetor. Sentia que deveria cerrar os olhos, deixar-se varrer pelas ondas sensoriais. Todavia, precisava de prestar testemunho. Gravar aquele momento. Registar cada nuance. Não lhe bastava ter apenas um sentido saciado e persuadido. Desejava todos em estado de alerta. Daí afogar a ponta dos seus dedos para afagar o seu cabelo sedoso. Daí aquele súbito assalto ao céu da sua boca, forçando um gemido e um carpido. Descerrando o seu olhar na sua direção, vislumbrando um ténue lacrimejar engasgado, avolumando à medida que aqueles olhos projetavam um sorriso.

«Amo-Te!»

A voz dele era um sussurro, pelos motivos óbvios. E pelos óbvios motivos, o sorriso dEla cresceu mais um pouco. Ela plantou um beijo na ponta do seu desejo e ele prontamente o empertigou para colidir com os seus lábios. O resto… bom, o resto é um mantra que recita devotamente pelas noites. Noites em que desperta na expectativa de uma experiência onírica... e adormece na certeza real da respiração que o embalou.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Sexo de Perdição


Tudo aquilo que preciso é de uma janela para a Tua alma e de tempo para me sentar a contemplar.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Ares


Engasgou-se na primeira estocada. A sua coluna arqueou em conluio com o “O” formado pela sua boca. Revirou os olhos, as mãos colheram um punhado dos lençóis e murmurou algo que poderia ser um «foda-se» ou algo ininteligível… um suspiro primitivo que representava a evocação de uma emoção ao invés de algo para devida compreensão.

Recuei… Arremessei… e engasgou-se novamente. O combate era bélico. O meu polegar ameaçou a sua traqueia e os restantes dedos sitiaram o seu pescoço. A pressão era crescente. Escoltava todos os seus sinais, aguardando que tentasse engolir, libertando o lençol e detendo o meu punho. Desfiz o cerco quando a sua mão oscilou. Tentou tragar golfadas de ar, mas impedi o desafogo clamando os seus lábios num beijo agressivo. Ela não se importou. Limitou-se a gemer e a beber qualquer coisa que forçasse pela sua boca… fosse língua ou ar reciclado.

«Foda-se!»

A primeira consoante delongou-se pelo tempo necessário para reforçar o poder de purgação das sílabas contidas naquela palavra. Soltou o lençol, embrulhou os seus braços ao meu redor, escalou em mim e entrincheirou as suas unhas na minha carne. Era a minha vez de titubear. Talvez conseguisse manter a minha altivez, mas o remoinhar daquelas ancas desarmou-me ao tentar friccionar a minha glande naquele ponto… ali! Naquele ponto de ignição que a devolveu violentamente aos lençóis.

«Vira-Te! Mãos! Joelhos!»

Não havia tempo para construções gramaticais. Apenas verbos e nomes. Um vocabulário espartano executado em prol da eficácia. Ela obedeceu prontamente e tomei rapidamente vantagem. As minhas mãos tomaram o território familiar daquelas ancas e a colisão concretizou-se. Ela engasgou-se, mas desta vez foi diferente. Desta vez, tinha-a invadido, tão profundamente quanto me era possível. Desejava tomá-la de surpresa, observando o espanto ecoando em espasmos pelo seu corpo. Desejava que Ela me engastasse no seu desespero e na sua urgência. Desejava constatar desconforto e excitação, alastrados pelo seu rosto na vaga de uma bela confusão. Pois aquelas ancas representavam o labirinto onde desejava enterrar o meu coração… um nicho para a minha pulsação.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Intermitente


O cursor era insistente. Não necessariamente rude, mas pertinente. Um pedal de bateria unidimensional, compassando o tempo como um metrónomo. A página daquele e-mailpermanecia em branco. Não por falta de pensamentos. Eles acotovelavam-se para encabeçarem a missiva, mas de alguma forma haviam emperrado no portal. Ele não sabia por onde começar. O cursor piscava. Arqueava uma sobrancelha, olhava-o de relance sob a sua vigilância. Sim, ele sabia que tinha de o escrever hoje. Mas porque não amanhã? Que diferença faria um dia?
Suspirou.
Lá fora o planeta continuava a girar, tal como está acostumado a fazer. Um homem era engolido pela escuridão depois de atravessar a passadeira em direção à marginal. Os semáforos associavam as suas luzes com os enfeites natalícios. Lá dentro, Monkey 47 voluteava no seu copo, dançando com uma rodela de gengibre e três bagas de zimbro. Os seus dentes mastigavam o lábio inferior, enquanto meditava sobre palavras apropriadas. “Olá” seria demasiado impessoal, “Querida” era profundamente desajustado e incluir apenas o seu nome revelaria alguma espécie de quezília. Ele afunilou o olhar, franziu a sobrancelha e concentrou-se irredutivelmente em jorrar palavras da sua mente, munido pela força de vontade. Fincou os pés no solo, ajustou a postura e plantou os dedos no teclado. Se aparentasse escrever algo, talvez os seus dedos encontrassem forma de completar a tarefa que o cérebro procrastinava.

«É fundamental para mim escrever-te algo. Desconheço a nascente do curso destas palavras, mas desejo ardentemente que desaguem no teu âmago, pois representas o meu Estuário.»

Patético. Ridículo. Execrável.
Pressionou a tecla delete, apagando todas aquelas palavras.
O seu dedo indicador açoitava os lábios, num acorde peculiar, enquanto fitava novamente aquele cursor.
Naquele raio de atitude comiserada.
Agora sim, parecia rude.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

καρδία


Se eu pudesse beijar-Te,
Através destes fios, destas ondas, destes pixels,
Afagando os lábios que essas palavras reflectem neste monitor,
Assim o faria.
Aninharia a Tua mão na minha e escutaria as Tuas histórias.
Partilharia conTigo uma garrafa de vinho, embriagando-me na Tua vida além de ficheiros *.jpeg ou *.gif.
Embrulharíamos as vozes ensandecidas das nossas mentes, sobre sonhos e pesadelos, sobre ideias e extravagâncias.
Eu poderia amar-Te.
Eu amo-Te!
Não da forma que a maioria dos leitores destas linhas conjectura.
Não da forma que iria envenenar as restantes relações que nos enleiam.
Seria um Amor que gera Poesia e múltiplas expressões artísticas.
Seria um Amor decifrável apenas sob a nossa égide.
Algo forjado através de uma rede de algoritmos blogosféricos… belos, forasteiros e desbravados.
Algo pelo qual zelaria uma vida inteira.
Pois dás velas ao meu coração e constelações aos meus vocábulos.
E tudo o que eu desejaria era que tivesses noção de como tudo isto é sobre Ti.
De como todo eu sou Teu.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Pulsão


Podia dar-Te tudo!
Não seria assim tão complicado, pois cada um dos Teus desejos encontra-se grafado na Tua pele com tinta permanente. Os Teus olhos são autênticos pregões… dedos de espuma no meio de uma multidão… sinaleiros. Uma estocada sumária aqui, uma palmada nevrálgica acolá e serias manteiga derretida na palma da minha mão. Simples! Todavia, porque teria de ser assim tão compadecido, outorgando-te tudo? Qual seria o louvor de tal concessão, aparte de um prazer arrebicado, profundamente sensaborão? Nada mais do que um elixir insípido para enxaguar e cuspir. Sem polpa para saborear e degustar. Não há consideração nessa entrega, apenas antecipação. Meros segundos de expectativa e a disseminação fica consumada na Tua língua, no Teu peito, entre as Tuas pernas. Realizado, mas sem qualquer Sentido de Realização. Antes da destilação, prefiro (e preciso) que tudo fermente na Tua mente. Um pensamento que fervilha até chegar ao ponto de ebulição, perpetuando a realização do Desejo como algo fervente, arrebatador, premente e abrangente.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

exCITAÇÕES


(...)

Do it, do it, do it now
Say it, say it, say it now

Do it, do it, do it now
Say it, say it, say it now

That you're my number one guy

I was hoping with chance
You might take this dance

'Cause I'm still alive who you love

Still alive for you who you love

(...)








(Fui a Praga há semanas, aproveitando para ver a deliciosa Elena e restante Companhia, num autêntico concerto subterrâneo de garagem... memorável! Sábado, ela voltou a enamorar-me, desta feita pelo Coliseu da capital. É uma daquelas bandas que desejava ardentemente só para mim... dolorosamente bela, atmosférica e profundamente envolvente. Eles já eram perfeitos com covers, mas servindo-se de uma criação de Bon Iver e outra de Hot Chip, apresentam-se sublimes até em mash-ups)

Cardióide


Por hoje, que se fodam as cordas, as algemas de tornozelo, o plug, a chibata ou até a mordaça!
Que se foda igualmente a indumentária, pois não precisas de Te vestir para isto.
Cedamos apenas ao movimento, ao sentimento, à gravidade, ao ímpeto, ao impulso e à inércia. Um contra o outro, carne contra carne, sentidos pintando um quadro vívido de veemência sexual até retesares no instante de prazer que te oblitera do mundano e arremessa na plenitude. Hoje, não há necessidade de bordadura. Proliferemos como um Conjunto de Mandelbrot, em padrões de réplicas e mais réplicas ad infinitum… como se o filamento dos encadeamentos albergasse as respostas para todos os mistérios existenciais. Contudo, hoje não precisarás disso. Precisarás de mim! Das minhas mãos e do furor das minhas estocadas, que Te enterram como se desejasse irromper a Tua cabeça pelo solo chinês.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Epítome de um Alento


Beijo-Te em países que ainda não foram denominados. Deslizo idiomas pelo declive do Teu umbigo e pela protrusão da Tua clavícula, para me sentir inebriado na tirania das horas em que me ausento. Vandalizas o meu controlo e sintetizas a minha avidez. E depois da Lua nos ter espiado recusando-se a pestanejar, acariciarei o Teu cabelo até o peso da noite ancorar os Teus olhos.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Kore


Entre a Vida e a Morte,
Estás aqui.
Manipulas pulsações e concebes-me…
Furtas fôlegos e aniquilas-me.
Entre os meus lábios,
Estás aqui.
Discorres sobre ternas promessas
E expressões mordazes
Que me sulcam até ao tutano.
Entre os meus olhos,
Estás aqui.
Cânone de Beleza Feminina...
Minha Chloe de Lefebvre…
Minha Afrodite de Praxiteles.
Entre as minhas palmas,
Estás aqui.
Pastoreias pelas minhas impressões digitais
A tua tez aveludada…
Consoladora
Comovente
Contundente.
Entre o nascer e o pôr do Sol,
Estás aqui.
Vaticinas a eternidade do Amor
Ataviada pela desfocagem da linha do infinito.
Entre a saudade e a melancolia,
Estás aqui.
Expectante por um encontro...
Vigilante por um desencontro.
Entre ontem e amanhã,
Estás aqui.
Uma doce memória
Sobre um futuro inexequível.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Anatomia de uma Estação


Será que Te esqueceste
Que o Inverno começa
Com os meus joelhos
Sem vontade de se apartarem
Das Tuas fossas poplíteas
Sob as cobertas matinais?

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Auspício do Precipício


Percorro uma miríade de cenários antes de Te possuir.
É a minha manifestação supra-pessoal de paciência. Imóvel, conjeturando o cenário e depois os planos, ato após ato de devassidão que volita pelo olho da mente como rabiscos no canto de um bloco de apontamentos. Não há refinação. Todos os enquadramentos representam um esboço, mas as ideias estão bem incrustadas e cada uma sacode-me e denuncia-me equitativamente.

A espera não é assim tão suportável, sabias? Não se trata propriamente da manifestação de Maquiavelismo. Represento antes uma personagem de Bergman, vagarosamente levantando uma peça de xadrez, pairando-a sobre o quadrado, prolongando o momento até um estreito diáfano. Até sentires aptidão para enxergar uma panóplia de momentos convergidos naquele preciso instante… e Te sobressaltares com o ressoar da peça a tombar no marfim. Uma miríade de cenários e nenhum se destaca em comparação. Aqui reside a frustração, destilada numa frase. Embarco pelas noites com perversão rotativa e cada vocábulo é apenas um eco da experiência. De algo real, algo tangível. Quando estas mãos se apossam do Teu corpo e estes lábios se encadeiam nos Teus. Quando Te sinto escalando em mim. Quando Te abalroo pela casa adentro. Engasgando-Te e fazendo-Te saborear a brutalidade do ápice. É um mecanismo de confrontação. A Paciência apenas se revela virtude quando temos de empregar luta. Quando a espera é um esforço ativo, em vez de uma observação passiva. O Tempo passa incólume e há que lutar contra as vagas tirânicas do ponteiro mais irrequieto. Até sermos varridos pelo aguardado segundo, pelejando para nos firmarmos naquele arroubo.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Lúcifer


Retira o pensamento do testamento, pois não me refiro a isso.
Façamos uma breve digressão pela Etimologia. Lux… representa a Luz, a iluminação que invadirá os recantos sombrios da Tua psique, descendo à cave da Tua mente e vasculhando por um pedaço de conhecimento que nem tinhas percepção de possuir. Ferre… representa a carga, o carregamento. Para Te conduzir desde aqui até acolá, desde o início até ao fim. Para ser o Teu transporte se Te permitires a embarcar.

Considero que a melhor forma para assegurar controlo não provém da privação, nem pode derivar da colheita sem freio até o desespero se apoderar de uma rendição à dependência, sem escolha além da aquiescência. É deselegante. É um percurso de brutidão que busca a linha de melhor ajuste, mas não necessariamente a linha de menor resistência. Defendo que será sempre a disposição de um vasto leque de escolhas que Te paralisará. É através da prova de como a vida sem controlo pode ser terrífica que Te faço entregar as rédeas sem pestanejar. Através do enlace onde o controlo é a opção real a tomar, em detrimento de estabelecê-lo como a única opção. Desta forma, apresento-Te Escolha e jamais Predefinição. Desta forma, sentir-Te-ás realizada com a eleição. Iluminada. Informada. Desta forma, sentencias-Te voluntariamente… em vez de Te exagitares sob os meus grilhões. Irei então segurar a porta enquanto deslizas graciosamente para o interior dos meus aposentos… abstraída do subtil clique do trinco da fechadura atrás de Ti.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Esfumada


Ela tem buracos e preenche-os com coisas. Com brinquedos. Com cigarros. Com roupa interior, vestidos e sapatos. Ela entope-os com sorrisos, beijos, dedos e caralhos de estranhos. Coleta homens, mulheres e apetrechos sexuais, recheando os seus orifícios. Todas as noites, fita a escuridão e sente-se preenchida. Diligencia um sorriso. Tenta incrustar na sua consciência que aquilo e aqueles que acoita calafetam o seu interior, completando-a. Pela manhã, as fendas reabrem e ela trata de mascarar o baque do coração com mais lingerie e cafeína. Ela sabe que aquele vazio não provem da confluência das suas coxas. Todavia, o sofrimento na aceitação de que as cavidades são permanentes despoleta o seu próprio terramoto. Ela ruirá constantemente. Então cola-se sempre com mais esperma, na esperança de que a próxima aplicação represente vedação.

Epifania


Sou o homem cujos dedos cartografam a Tua espinha dorsal, empregando toques inesperados para Te descarregar arrepios elétricos pelo sistema nervoso central. Sou o homem que joga com a Tua antecipação, examinando a Tua te(n)são e investindo um segundo depois, quando esses olhos se estabelecem na escuridão. Consegues ver a utilidade de uma venda? Quando a Tua carne e o Teu cérebro gritarem por mais… e nada mais Te resgatar além do Toque, do Cheiro, do Recital e do Sabor… entregar-nos-emos à Epifania. Pois acima de tudo, sou o homem que beijará as Tuas feridas, uma vez que não as enxergo como desastres da Tua Alma, mas como fendas para verter o meu Amor.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Não é uma Praga… é uma Dádiva!


Kafka viveu nela. Kundera escreveu sobre ela.
Eu inspirei-me nela.
Eu inspiro-me nEla!
Eu vivo nEla! Eu escrevo sobre Ela!









Venham de lá os próximos capítulos...

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Fractais


Ele aguardava que Ela se pronunciasse, apenas como desculpa para a emudecer. Um bocejo também serviria para o efeito, mas o silêncio estabeleceu-se inexoravelmente. Ela tomou todo o tempo do mundo antes de o quebrar, abrigando-se na sua escolha de vocábulos. Ela pressentia aquilo que se aproximava. Os olhos dele revelavam-se autênticos oradores. Ela arremessava-se para o covil com uma centelha no seu olhar, uma chispa de malícia que ele tinha de se esforçar para ignorar. Ele tinha de ocupar o momento num estado de negação, até se proporcionar a janela de oportunidade para investir.

«O que planeias…», foi o máximo da língua portuguesa que ele lhe permitiu articular. Ela certamente desejava ter proferido algo mais adequadamente lascivo. De qualquer forma, obteve aquilo que ambicionava e aquilo que ele tencionava. A glande transpôs os seus lábios, preenchendo-A com a sua largura. Pele aveludada contra língua desassossegada. Numa pulsação abafada que A instruía com um ritmo a seguir. Com um ritmo que ele instituía para lhe escoltar. Obstinadas, as algemas mordiam os punhos dEla. Afincando a noção da sua presença. Restringida da deambulação luxuriosa de poder senti-lo com o palato e com o tacto ao mesmo tempo. Ela fitava-o com uma mescla familiar de frustração e adoração, que se havia tornado um deleite requintado. Ele soltou um espasmo e saboreou o momento. Estava cada vez mais empolado. Cada bombada daquele coração empregava-lhe mais sangue, inchando-o dentro da sua boca. Estocadas específicas faziam os olhos dEla reluzir… aliás, relampejar! O foco do olhar que provinha de cima era intimidativo.  Ele perdia-se naquele ritmo, incapaz de perfilhar o prazer casual que os restantes homens adotavam naturalmente. Era consumido pela sensação, integralmente absorvido… e restava-lhe olhar para si, olhar para Ela, olhar para si, olhar para Ela… sorvendo cada detalhe. Ela prendia o olhar no dele, apesar dele adejar a sua atenção entre olhos, falo e lábios… observando como faiscavam numa frequência própria.
Num ápice, aquele Mundo detonou fulgurante e ambos contemplaram-se no seu reflexo.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Eu... Teu...

Colheita


Não há polpa no facilitismo. Isso seria enfadonho. Diálogos corriqueiros que desembocam em sexo mundano, bem como em curiosidades desinteressadas e desinteressantes. Seria uma mera adenda. Trivial. Efémera. Como aparas de madeira que expiram na fogueira do tempo.
Se não desejavas crescimento, não deverias ter enterrado os pés no fertilizante, retorcendo os dedos no meu solo, distendendo direcionada para o firmamento. Se não desejavas desenvolvimento, não deverias ter sufocado nas linhas que me cosem, pestanejando na escuridão. Se não desejavas transformação, não deverias ter arremessado as Tuas roupas no meu chão.

Consigo plantar dúvida como uma semente, permitindo que Te consuma como as boas ideias nos conseguem corroer. Posso contemplar como enrijece, cresce e germina, até não teres meia-certeza do Teu meio-conhecimento… num tumulto de quinhões sensoriais. Posso observar como Te descascas até Te revelares como um fruto estremecido, aguardando ser colhido e espremido. Tudo se resume à forma como debulhas as Tuas camadas, redescobrindo quem és verdadeiramente, tremendo no epicentro dum amontoado das Tuas antigas vestes, esfarrapadas numa auréola despojada aos Teus pés.
Não és um anjo. Não és um demónio. Por ora… és minha!

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ambiguidades


Se dobrar, ceder e consentir,
Inspirarás?

Se sussurrar contra a Tua pele,
Expirarás?

Se desnudar o que me reveste,
Dar-me-ás um momento com a Tua alma?

Se soçobrar sob o que Te reveste,
Dar-me-ás a Eternidade?

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Dédalo


Envio-Te para o Labirinto com um novelo de fio.
Bastarão alguns puxões e trago-Te de volta. Mas enquanto estiveres distanciada afagarei o Teu subconsciente… com reminiscências de toques, sussurros, palavras, sopros… tudo lânguido e célere, espontaneamente consubstanciado. Exíguo, mas profundamente Liberta(dor)!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A Carícia da Malícia






«Mais forte! Mais rápido! Por favor!!»

Os meus dedos pausaram. Tangia a pele da sua perna com a leveza de um raio solar… equivalentemente soalheiro. Subi o olhar para o seu rosto, e desci novamente. Esbocei um sorriso que se desenhava no canto dos meus olhos e no limiar dos meus lábios. A malícia havia consumado um ninho nas minhas atitudes. Retomei a atividade dedilhada num ritmo staccato, não propriamente de instrumento de percussão, mas de sopro. Um clarinete, talvez. Aliás, um saxofone! Tratava-se de jazz. Ela queria uma orquestração bombástica digna de Wagner. Queria uma "Walkürenritt", uma cavalgada ensandecida de quatro… e eu, bom, eu desfrutava do seu tornozelo com a delicadeza de John Coltrane. Ela lambeu os lábios. Humedeceu-os. Deslizou a sua língua para o exterior, apenas o suficiente para os deixar a cintilar, sempre com os olhos fixados no meu rosto. Inspirou. Expirou. Voltou a inspirar. E contorceu-se até ser obrigado a estagnar e perder o posicionamento. 

«Isto não é justo, sabias?»
«Ao que te referes, concretamente?» - deleitava-me com a descoberta do derradeiro entretenimento.
«Ao facto de me tratares delicadamente, quando sabes perfeitamente que neste momento não desejo ser tratada com brandura. É cruel da tua parte e pouco usual!»
«Não achas que faço justamente o oposto?... Não achas que tratar-te desta forma é efetivamente o oposto da candura?»

Os olhos dEla chisparam. Ela parecia desejar bater-me. Apenas o suficiente para me provar a sua frustração.
«Não! Não é assim que funciona. Refiro-me à ação… não ao intento!»
Mas as suas palavras encontravam-se tão embargadas como o seu raciocínio. O que tinha acabado de proferir estava igualmente errado. A Ação e o Intento trabalham em conjunto, numa estranha meia-vida, onde um representa presença e o outro (aparenta) ausência. Isto deixava-A desequilibrada… repleta e vazia, ao mesmo tempo.
«Caramba… tu sabes ao que me refiro. Para!!»

Assim o fiz. A minha mão colapsou na sua perna. Palma pesada contra pele suavizada… neste caso, encolerizada. Por um instante, talvez lhe tenha parecido que iria ceder, dar-lhe o que Ela necessitava… mas deixei-me ficar. Uma mão sitiada na sua perna e a outra repousando no meu colo. Fixávamos o olhar. Aquele verde esmeralda afundava-se na escuridão das minhas pupilas, como se remoinhasse num pântano que teria de percorrer. Só que não tinha noção de como sair.

Estacámos durante um belo período de tempo. A luz passeava lá fora com as suas diferentes tonalidades. Nenhuma interrupção extrínseca perturbava a confrontação… fosse um toque de chamada ou um protesto de estômagos. O tempo congelou… mas nada fica verdadeiramente gélido entre Nós, pois no cerne arde uma Chama inexpugnável. E assim tudo passou. Tão simples quanto isso. Poderá ter sido através da comunicação silenciosa de um pestanejar… de uma dilatação nas pupilas... de um peito que denunciava uma alteração no batimento cardíaco… ou até de uma golfada de ar mais insólita. Certo é que quando demos conta, já lhe fincava a coxa com uma mão e reivindicava uma das suas nádegas com a outra. Confortavelmente firme. Ousado. Seguro. Determinado. E então, lá estava eu, face a face, sorriso contra sorriso, com a minha barba por desfazer cercando a sua pele imaculada. A meio do beijo, Ela sentiu-me a desabotoar o decote da sua camisa em busca da constatação túrgida do seu mamilo.
Belisquei-o resoluto.
Ela gritou… mas aqueles decibéis não conseguiram suplantar a sinfonia de orgasmos que Ela estava próxima de entoar.


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Ser Amado...


... é ter um lembrete literalmente alojado no corpo dEla, ao mesmo tempo que Ela me aloja na sua mente.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Yin-Yang


Falo de uma jornada que começa Aqui e se destina Acolá.
Aqui, representa tudo aquilo que és, cada montanha e cada recesso, o bom e o mau.
Acolá… representa Algo mais! Representa aquilo que queres ser em detrimento daquilo que és. Disposta a rasgar a pele, trucidar inseguranças, neuroses e falhas, harmonizando-Te no tipo de formas que preenchem as fendas do próximo.

Por muito independentes que alguns erróneos gostem de se apelidar, estamos Todos interligados. Todos dependemos de alguém. Um é reflexo do Outro. Os sentimentos e emoções que deambulam pela mente do Ser vibrarão no inconsciente coletivo, fazendo com que o cosmos vibre num ritmo sincronizado. Reduzindo a observação relacional a um nível microscópico, costumo escutar que uma relação não deveria assentar na descoberta de alguém que nos complete, mas alguém que nos acentue, realce e reforce. Que encontrar o Yin cósmico para o nosso Yang cósmico não será assim tão saudável, pois o princípio assenta à partida na crença fundamental de que não seremos assim tão completos por conta própria. Todavia, adotar o papel que suplica pela outra metade representa um esforço consciencioso. Um jamais será pleno sem o outro, pois definem-se pelas naturezas simbióticas. Eu dependo de Ti e Tu dependes de mim. Atados e rogados na cama. Pois a corda tanto necessita de uma vítima como de um manipulador.

Será que tudo isto significa que há um desequilíbrio intrínseco nesta forma de vivência? Será que apenas estamos reconhecendo como somos incompletos, como precisamos de alguém, e que tal busca representa um sinal de fraqueza? Talvez. Mas eu desafio qualquer um a encontrar uma individualidade que se mantenha em perfeito equilíbrio, mediando o mundo com o olhar cego da justiça. A vida é desequilíbrio. É o caos, o acaso, repleta de sistemas aleatórios que chocam para produzir resultados aleatórios… tudo amalgamado até que nos enxergamos no centro desta bela chama e deixamos de ter a certeza se representamos a própria chama ou o pavio. Felizmente, uns quantos de nós encontra alguém que lhes providencia um fósforo...

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Paraquedas


Boa escrita é como saltar de um avião apenas com uma agulha, linha e um pouco de tecido. O propósito consolidará sempre algo memorável. Há que urdir palavras como se a própria vida dependesse disso. De Premência para Vivência, em vez de sobrevivência…

O meu ímpeto será sempre purgar o meu âmago, pois o contrário seria inconcebível. Reduzir as possibilidades de omissão de uma saída, algures, particularmente daquelas ocultas em vielas que providenciam portais para escaparates idílicos. Preciso de tatear as paredes… de achar a entrada congruente… e barricar-me com mente aberta, olhos deferentes, dedos comunicativos e corpo eloquente.

sábado, 26 de outubro de 2013

(Justa)Posição



Eu atendo-A… alimento-lhe a fogueira que a mantém inflamavelmente excelsa… escoro as bordas da sua consciência, de tal forma que jamais o mundano será capaz de A implodir ou colapsar… Emprego-lhe a minha dicção como fogo num balão de ar quente, mantendo-A a flutuar.

Sempre que estivermos juntos, não preencheremos o vácuo… pois o vácuo simplesmente não existirá.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Comida


As cozinhas conseguem satisfazer mais do que um tipo de fome.
Como a maioria das laricas, acredito que o apetite por uma boa foda será apenas saciado temporariamente. E pode ebulir nos períodos mais extemporâneos, como no próprio momento da confeção de uma refeição. Poderá ser acionado por detalhes. Seja pela forma como o avental enquadra o Teu rabo… ou pela forma os meus dedos firmam os vegetais que lamino. Talvez tenha a ver com a altura do balcão, ideal para Te empinar na minha direção. Talvez seja inevitável mexer conTigo, quando me atentas a mexer os ingredientes. Ou talvez seja a execução do próprio ato doméstico em conjunto que propulsiona reações sexualizadas na Nossa insuprível essência lasciva.

Inevitavelmente, as minhas mãos irão reivindicar o Teu corpo e as Tuas mãos irão deambular pelo meu. Até surtir a comutação tangível… onde enjeitamos a igualdade e eu faço jus ao estatuto de macho alfa, arrimando-Te no chão. Claro que Te irei contundir. Os ladrilhos irão magoar os Teus joelhos enquanto esperneias ao liberar-Te do avental apelativo e afasto a tua cuequinha para o lado. Será sempre o jogo de contrastes que torna uma degustação memorável. Saltearei os Teus sentidos e salpicarei cada estocada minha com um gemido Teu… até ao momento em que vislumbrarás o Nosso reflexo convulso no forno e suspirarás. Porque os olhos também comem… e reavivam-Te que Te tomarei onde, quando e como quiser. Que o quarto não será o único local onde Te tratarei como uma Puta… como a minha Puta!

Sim, a cozinha vai esquentar…
Sim, tem tudo a ver com comida… e como serás comida!

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Asterosismologia


Sou um caçador de borboletas… um couteiro de Endorfina… um astronauta da Tua órbita...
Sou o calor que irradia pelo Teu sistema como aquele primeiro gole num bom copo de vinho tinto… que descontrola o Teu espectro de frequências… aquecendo-Te, desde os Teus dedos dos pés até aos Teus restantes membros, numa oscilação estrelar. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

exCITAÇÕES


(...)

Desaba toda sobre mim
Vem resolver o meu dançar
Que o corpo sobra se não dobra

Nós fomos feitos para estragar
Desaba
Desaba toda sobre mim

Vem resolver o meu compasso
Num ângulo morto de visão
Que nos apague o embaraço

Desaba
Pudera eu tornar imenso o espaço

Caber-te inteiro.

(...)