sábado, 6 de abril de 2013

Orfeu, Eros e eu



Há muito que este recanto merecia linhas de texto sobre a minha personagem mitológica predilecta: Orfeu. Personagem inspiradora, na qual encontro reflectida alguns dos meus torvelinhos… personagem que protagoniza com Eurídice um dos mais belos Contos de Amor alguma vez narrados. Uso o nickname Eros, pois não sou digno de Orfeu. Aliás, não sou digno de usar qualquer alcunha de deus, em virtude de não possuir tantas virtudes, pois sou um mortal que provavelmente perecerá no oceano do anonimato, sem deixar um rasto digno de memória ou louvor. Mas adiante… escolhi Eros pelo seu cariz de Louco e Excitador. E pelo contraste com um pormenor fundamental na História de Orfeu. Ora Eros, roga a Psique que jamais olhe para o seu rosto. Ao passo que Orfeu apenas poderia resgatar Eurídice do Reino dos Mortos se nunca olhasse para o rosto dela enquanto não tivesse alcançado o Reino dos Vivos.

Orfeu é o derradeiro Poeta. Após receber do seu pai Apolo uma Lira como presente, aprendeu a tocar com tamanha dedicação e Beleza que ninguém ficava indiferente ao encanto da sua Música, tanto Humanos, como Animais ou mesmo objectos inanimados. Tudo e todos se rendiam ao seu fascínio. O grande Amor de Orfeu era a Ninfa Eurídice. Pouco tempo após o casamento de ambos, Eurídice foi surpreendida por Aristeu, que ao avistá-la se apaixonou perdidamente e tentou conquistá-la. Na sua fuga, Eurídice pisou uma cobra e morreu da mordedura que esta lhe infligiu. Amargurado e absolutamente inconsolável, Orfeu decidiu penetrar no Reino de Hades e Perséfone para resgatar a sua Amada. Perante o trono desses deuses inflexíveis cantou o seu desgosto e o seu Eterno Amor, predispondo-se a ficar pelo Reino dos Mortos se não lhe devolvessem Eurídice. A sua melodia era tão bela que todos os fantasmas choravam, Cérbero (o cão de três cabeças que vigiava os portões) foi amansado, o tormento dos condenados foi aliviado e até Hades e Perséfone se comoveram e consentiram em devolver Eurídice ao Mundo dos Vivos. Com uma condição: Orfeu poderia levar Eurídice, mas não poderia olhá-la antes de terem alcançado o mundo superior. Caminhando na frente, Orfeu entoava cânticos de júbilo. Todavia, perto de atingir os portões de Hades, foi acometido pelo receio de ter sido ludibriado pelo Guardião dos Mortos. Ora Orfeu era um Artista. E qualquer Artista necessita de uma plateia, mesmo que se cinja a um único espectador. Porquê? Porque um Artista dedica a sua Arte a outrem, oferece-lhe a sua Alma… e necessita de ver a Sua Alma reflectida no seu foco, como símbolo de esperança que a sua oferenda não seja um tributo oco. Ora se até as pedras não ficavam indiferentes aos seus poemas melódicos, se até os insensíveis deuses do submundo o haviam “aplaudido”, porque é que Eurídice, o foco do seu Eterno Amor, que seguia imediatamente no seu encalce, que o escutava entoando maravilhosos cânticos de Felicidade e Amor Puro por ela e para ela… porque é que ela não disse uma única palavra?... Ele vira-se para trás, para confirmar se ela realmente o seguia. Eurídice, com os olhos marejados em lágrimas, é então levada de volta para o Mundo dos Mortos, por uma força irreversível.
Orfeu definhou na margem do rio durante sete dias, sem comer nem dormir, suplicando pela volta da Amada. Vagueou triste e solitário pelo mundo, sem querer saber de Mulher alguma e repelindo todas aquelas que o tentavam seduzir. Até que um dia, as mulheres da Trácia, enfurecidas pelo seu desprezo, o mataram, retalhando o seu corpo em pedaços.

Orfeu é um deus com uma fortíssima característica humana: o fracasso.
Enquanto humano, posso fracassar, como certamente sempre fracassarei. Posso não possuir a idoneidade lírica, nem os traços de excelência de um deus grego. Posso não ser magnético como as árias criadas por Orfeu munido pela sua Lira. Mas irei retalhar toda a minha Alma em busca de um fragmento de utilidade que o meu Âmago possa albergar para Ela.

12 comentários:

  1. Meu querido Eros:
    Orfeu fracassou apenas porque não acreditou na devoção de Eurídice, porque não entendeu a linguagem do silêncio, a linguagem do amor para além das palavras. Cegou-se pelo poder dos sons que estava habituado a deter e não valorizou a importância dos actos....faltou com o compromisso assumido na sua demanda e duvidou que Eurídice o seguisse apenas com a voz do coração.
    Da triste história de Orfeu, detenho a importância dos actos para além das palavras, porque apesar de encantadoramente belas, a vida compõe-se por aquilo que fazemos e não por aquilo que dizemos. Será sempre mais fácil libertar a voz do que libertar as acções.
    Há que entender as diferentes linguagens do Amor e da Vida, há que abrir os olhos ao mundo e conseguir ver para além daquilo que tem valor para nós próprios...porque Amar é também abdicar de um pouco de nós para ir ao encontro do outro e permitir a unicidade das Almas.
    Impossível atingir a plenitude, se dirigirmos o nosso olhar apenas no sentido daquilo que é importante para nós, sem conseguir atingir a abrangência do Todo que nos rodeia.

    Orfeu não entendeu Eurídice, e não se deu a si próprio outra oportunidade de ser feliz.

    Podes não ser um Deus.....mas acredito que serás muito mais que Orfeu.

    Beijoooos constelados
    da Tua *Estrela*

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    1. Absolutamente de acordo!
      Se é certo que Eurídice também não compreendeu a necessidade de Orfeu, ele não foi capaz de entender a verdadeira razão pela qual ela não disse uma única palavra. Pois uma única palavra de Eurídice seria infinitamente mais tentadora para Orfeu do que todas as melodias que ele havia criado.
      Felizmente, no final, apesar de todas as tormentas... o Amor acabou por vingar... e a União foi consumada. Pois nenhum Mundo os poderia apartar em definitivo.

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    2. Talvez no mundo dos Deuses a união se possa consumar para além da morte...mas na Terra, no mundo em que vivemos, não existe esse "Felizmente". A vida deve ser vivida Agora, porque apesar do Amor prevalecer perante a Morte para os que ficam....não existe união para além da Vida.
      Achas que Eurídice não entendeu Orfeu? Ou teria também ela as suas limitações impostas?
      Na minha interpretação, o silêncio era a grande prova de Orfeu pois nunca seria posta em causa a sua devoção por Ela e a coragem de a resgatar, apenas a sua capacidade de a entender....
      E Orfeu comprometeu-se a não olhar, sabia que era essa a imposição...mas não foi capaz de o cumprir.
      Orfeu foi castigado pela sua própria fraqueza e não teve a capacidade de assumir e ultrapassar as consequências das suas decisões.

      Na vida, não devemos lamentar-nos das decisões tomadas, devemos aceitá-las, aprender com elas e procurar construir um futuro melhor enriquecidos pela experiência das vivências que temos.
      Viver no passado sem dar oportunidade ao futuro, é condenarmo-nos a uma vida triste como a de Orfeu.

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    3. Era um deus humano. Todo o (verdadeiro) Homem baqueia sob o Poder avassalador da Mulher. E esse baquear nunca será sinónimo de fracasso... significa Devoção.
      Hajam Ninfas para todos os Poetas.
      Hajam Poetas para todas as Ninfas.
      Hajam presentes... no Presente.

      E Hajam Sorrisos... múltiplos :)

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    4. Para quem ontem escreveu :
      "Orfeu é um deus com uma fortíssima característica humana: o fracasso.
      Enquanto humano, posso fracassar, como certamente sempre fracassarei...."
      Muito me apraz ouvir-te agora falar de Devoção :)

      Venham lá os presentes no Presente e Sorrisos....muitos e sinceros!

      Beijos Eros
      Um fim de semana sorridente para ti :D

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    5. E sempre me devotarei!

      Bom fim-de-semana :)

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  2. Uau... Estou encantada com o teu texto, também sou fã de mitologia grega mas a dimensão que lhe deste neste texto foi muito mais além... E também não poderia deixar de tecer um elogio às palavras da Estrela, uma interpretação brilhante :) Perdoem-me mas não resisti a ler a vossa troca de comentários.

    Acrescento também, que Orfeu não soube interpretar o silêncio, mas também foi movido pela sua própria vaidade, pelo facto de entoar canticos maravilhosos e ela não se manifestar.

    Beijinhos a ambos e um fim de semana bom*

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    1. Todo o Artista é vaidoso.
      Assim como todo o Amante.
      Ambos tiveram o seu pingo de vaidade... ambos sofreram a penitência por terem falhado, de certa forma, um com o outro... Mas a União Final, depois dos desditosos desalinhos não só verte Esperança... como a Inspira.

      Bom fim-de-semana

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  3. Um presente ..
    Estrela e você ..
    Bom fim de semana .. prá ambos.
    ;)

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  4. Olá Eros,
    Esta fábula mitológica, transporta-nos para o Amor Verdadeiro e Puro. Com uma dedicação sem limites e mesmo errando, já que estamos agarrados á matéria, enfrentamos “demónios” para resgatar quem tanto Amamos. Discordo, quando comparas o Orfeu ao fracasso. Existe sim, fases boas e menos boas do percurso da Alma. E muitas vezes, acontecimentos são como são, porque, servem para desfazer nós. Que de outra forma seria impossível de serem desfeitos. E aquilo que aparentemente aos nossos olhos terrenos é incompreensível, mais tarde se revela compreensível. Todos nós temos uma marca própria e um registo de genuíno e autêntico e a nossa maior virtude está na capacidade que temos em aceitar as nossas limitações sem julgamentos. Acima de tudo, respeitarmo-nos num todo com as nossas virtudes e defeitos. Porque, no reconhecer e aceitar está a libertação. Falo por experiência própria do meu caminhar, já que dentro de nós há 2 habitações e depende de nós a que desejamos abrir no amanhecer de todos os nossos dias. E ao que tu chamas “fracasso”, para mim são ideias que nos incutem no espirito. E na maioria das vezes, os insucessos e os erros servem de alavanca para as nossas vitórias. Porque, a vida é feita de etapas. E só digo uma coisa :” Viva ao Amor, Viva à Inspiração e Viva a Esperança. Beijinhos Águia

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