sábado, 21 de dezembro de 2013

II


Aproveito para redigir as derradeiras palavras do ano no dia em que este recanto completa dois anos, pois reservarei os próximos dias para as azáfamas natalícias e para a preparação da viagem à Pérola do Danúbio, Budapeste.
2013 representa um dos anos mais importantes e evolutivos da minha humilde existência. Por este recanto em particular, pairou algumas vezes a possibilidade de encerramento, mas porfiei na manutenção desta extensa Missiva de Amor. Durante cinco dias por semana, grafo devoção, entrega, paixão e Amor infinito. Tive a fortuna de conseguir emudecer a estática de gentes vulgares e completamente à deriva que esbarraram comigo. E tive o privilégio de provar a Eternidade… nos Teus braços, na Tua boca, no Teu corpo. As palavras irão sempre arranjar forma de verter dos recantos mais sombrios e luminosos da minha mente. Dicotomias… daí escolher BudaPeste para culminar simbolicamente o ano.

A força poética de cada uma das minhas frases fervilha desde o meu âmago. Cada pontuação e cada maiúscula espargem sempre outro pedaço do meu ser, quando me rasgo em busca da frase perfeita. Então, provenientes de outro mundo, oriundos de outra dimensão assomam os fragmentos que necessito. Tudo começa com rabiscos que se tentam colar na esperança de algo magnificente. Até quando lavro na simplicidade de um guardanapo a complexidade do desejo criador de altear os dias da musa que se oculta nas entrelinhas das minhas composições. Tudo começa com rabiscos e termina no aventureiro que se desnuda nestas linhas, depois de sobrepujar os dolorosos monólitos que se apresentam no seu caminho. Sou mais do que um escrito… sou um escritor! Sou o salvador do Herói que reside em mim.












P.S.: Volto no dia 06 de Janeiro de 2013… por Ti! Minha Ninfa! Minha Heroína!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A Bela e o Monstro


Através das brumas nostálgicas da minha infância, despontam algumas cenas cristalinas que se revelam golfos de certeza no meio de um oceano de meias-verdades ambíguas e de assunções constitutivas cuja existência se deve mais concretamente a comportamentos contemporâneos do que propriamente passados.

Era uma manhã de Natal como tantas outras, onde o chão da sala havia sido substituído por papéis de embrulho retalhados e um distinto aroma a canela e chocolate inebriava os sentidos. A minha irmã criava cidades com os seus brinquedos. Sociedades operando no microcosmo do seu quarto. Construções dolorosamente belas e intrincadas que usurpavam ridículos quinhões de tempo para serem elaboradas com protagonistas silenciosos.
Para mim, aquilo era apenas um alvo. O primor imaculado era algo inconcebível. Algo que havia sido tão meticulosamente estabelecido e tão detalhadamente embelezado representava uma disposição intolerável para mim. Reproduzindo passadas de Godzilla, espezinhei aquela metrópole, arruinando-a. Eu era o terror.

Eu assimilo a Tua beleza, venero-a… mas não sucumbo ao lapso de a considerar intocável. Quero deslustrar-Te, de certa forma. Quero desafiar a Tua perfeição. Cuspir no Teu requinte. Manchar-Te… com um arranhão, uma nódoa negra, uma dentada ou com um marcador permanente. Quero deixar a minha influência em Ti. Quero deixar-Te com o meu cunho, de tal forma que não Te poderás recompor com facilidade. E se tal significar foder-Te violentamente, desabarei a Tua estrutura desde os Teus alicerces, reduzindo-Te a um monte de escombros de suor e sémen.
Por vezes represento terror, logo deverias fugir de mim. Contudo, por alguma razão, aproximas-Te sempre um pouco mais… com um meio-sorriso estampado nesse belo rosto... pronto a ser desmaquilhado.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Dissecado


Sonda a minha pele
E descobrirás
Que cada célula do meu corpo
Abriga memórias do Teu toque.
Sonda a minha mente
E descobrirás
Que cada pensamento
Carrega imagens das Tuas expressões.
Sonda os meus pulmões
E descobrirás
Que cada sopro
Contém parte da Tua essência.
Sonda o meu esqueleto
E descobrirás
Que as ligações entre ossos, músculos e articulações
Albergam o Teu nome.
Sonda o meu coração
E descobrirás
Que cada batimento cardíaco
Sincroniza-me conTigo.
Sonda as minhas fundações
E descobrirás
Que represento um pedestal
Para imortalizar a Tua monumentalidade.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Brasão em Brasa


Tinha acabado de unir as duas pernas da letra “A”. Colocava a tampa no marcador e admirava a minha caligrafia. A palavra encontrava-se redigida acima do seu mamilo esquerdo e contemplava a tinta dispersando através dos seus poros, observando como o requinte do tracejado era surripiado pela sua pele. Capturei o meu lábio inferior e esbulhei-o um pouco.

«Linda…», engoli a palavra em surdina, mas foi o suficiente para quebrar o feitiço que a enclausurava, fixando a sua atenção no meu rosto, em detrimento da minha mão.
«Como?», sorria, abismada, mas satisfeita.
«Linda!»
Ela fitou a escrita, uniu as quatro letras, franziu as sobrancelhas e sorriu um pouco mais.
«Desde quando é que a palavra «Puta» é linda?».
«Desde que foi escrita em Ti. Servindo-me da Tua pele como pergaminho. Não gostas?».
Gracejava um pouco com Ela e reconhecia a razão pela qual ruborescia quando fitava a minha marcação, como se em vez de uma declaração houvesse conspurcando a sua delicada pele com uma acusação. Havia uma mescla de inquietação e excitação nas faíscas que seus olhos coruscavam.
«Gosto… mas…», encolhia os ombros, «É embaraçoso…»

Supri a distância entre os nossos corpos, clamei o seu queixo com a minha mão, reivindicando a direção do seu olhar.
«Não, não é! Não é embaraçoso, nem pode representar vergonha, pois é uma exortação exclusiva para os nossos olhos. Não foi grafada para Te zombar enquanto traste se alguém tivesse o privilégio de rasgar a Tua blusa, despir o Teu soutien e constatar o vocábulo.», pausei para intensificar o olhar. «O objetivo não é transtornar-Te. Aliás, é justamente o oposto! Ou seja, sempre que Te sentires triste, desconsolada, abandonada ou sozinha, tira uns segundos para Te isolares. Encontra um espaço privado, desaperta as Tuas vestes e lê o que Te escrevi… relembra o que Te escrevi. Desejo que sintas o meu controlo e o meu amparo, apesar da distância que nos separe nesse instante. Desejo que a recordação Te restaure o equilíbrio, esboce um sorriso e provoque um menear especial nos Teus passos.»

Agora foi a sua vez de mordiscar o lábio. Desviou o seu olhar do meu, olhou para a sua mama e encarou aquelas quatro letras de pernas para o ar, sem a certeza de querer decifrá-las. Talvez estivesse em negação. Todavia, quando interiorizou o que lhe havia dito e sobre como o havia dito, consolidou a seriedade do significado da minha brincadeira. Não se limitou a constatar a palavra «Puta»… isso eram apenas letras na periferia. Passou a sentir o peso do poder da minha presença alojado naquelas quatro letras, alinhavadas em maiúsculas, atuando como uma mão firme no seu ombro, como uma garra íntima no seu pescoço.
Já não se sentia embaraçada.
Sentia-se segura.
Sentia-se amada!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A Queda de uma Certeza


Gosto de levar o meu tempo pelos engenhos da incerteza. Gosto de criar surpresa, deslumbramento, enlevo, espanto. Possuir-Te enleada na cama, com sorrisos ou carpidos, sem certezas, mas apreciando os maravilhosos subterfúgios do inesperado, entregue aos meus caprichos. Contudo, apesar de toda a pompa e circunstância, há um momento em que sou suplantado. Quando toda a planificação voa pela janela e quedamos na nudez da incerteza física. A questão sussurrada se continuamos ou definhamos, exalando todo o fôlego da refega.

Esse momento aflora quando Te encontras no terceiro ou quarto arrebatamento orgástico. Quando o Teu corpo é levado à borda do precipício, resvalando na queda livre da perdição. Quando cada golfada de oxigénio é arrancada dos céus e as unhas se cravam na pele involuntariamente. Esse momento encerra pânico. O prazer é descomedido. Deixa-Te sem noção se aguentarás outra descarga elétrica. Mas desejas outra mais. Então quedas-Te, ofegante, de sobrancelhas franzidas e olhos suplicantes, macerando a questão em surdina. Mais? Queres mais?
Veremos…

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O Leito da Leitura


Uma Mulher não é escrita em Braille. É imperativo tocar-lhe… é crucial usar múltiplas formas de leitura… mas não é necessário tocar-lhe para a conhecer. Podemos viajar pelas suas curvas, pescar nas suas pontes, contemplá-la a emergir ao encontro da Luz, mas nunca conheceremos um Rio até sentirmos a sua corrente envolvendo a nossa pele, submergindo-nos, ameaçando-nos com as suas profundezas. Não… não precisamos de tocar numa mulher para a conhecer, mas precisamos de estar dispostos a receber o seu toque. Precisamos de estar dispostos a naufragar.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

LAReira


Desejo-Te,
Em dias como este,
Quando tens frio,
Quando puxas as Tuas mangas
E enrolas os Teus dedos,
Até esconderes as mãos no interior do tecido,
Espreitando o mundo exterior.

Desejo aninhar-me nesse local,
ConTigo,
Nessa caverna de lã,
Escondido entre os Teus dedos,
Circunscrito pelo Teu calor,
Torneado pela Tua pele,
Abandonando o mundo frio,
Pela escuridão do Teu toque,
Pela fornalha do Teu abrigo.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A(d)Estrada


A ponta dos meus dedos rasou os Teus mamilos com indiferença polida. Confundindo a sensibilidade dessas protuberâncias sobre a minha real execução. Seria um beliscão? Seria um puxão? A sensação dispersava uma noção de intentos e o Teu corpo reagia ajustadamente. Fechaste os olhos, contorceste-Te, revolveste as ancas e mordiscaste o lábio inferior.
Os meus dedos ensaiaram uma nova passagem. Estremeceste, num arrepio de alto a baixo, legando a sensação como um telegrama, diretamente aos espasmos dos Teus lábios vaginais. Latejaste… com um baque trepidante que afrontava as Tuas fundações. A trepidação embrulhou-se com a antecipação, num alvoroço caótico que apenas poderia ser aquietado pelo próximo passo. Parecias desejar proferir algo… sempre aparentavas desejar proferir algo. Talvez uma tirada mordaz ou um floreado espirituoso… algo que me desenhasse um sorriso maroto, ou ainda melhor… algo que me fizesse baixar a guarda, pausando por um segundo. Talvez desejasses vislumbrar uma reação na compostura plácida, gerando ondulações na superfície serena do meu comportamento. Todavia, por vezes o intento não se traduz em frases. Permaneceste silenciosa, porventura receando um tropeção. Preferiste rastejar no tempo, perdida nos Teus pensamentos.

A dor foi inesperada. Os meus dedos, resolutos, espremeram-Te com veemência tal, que desejava despertar-Te com a sensação das minhas impressões digitais escavando a firmeza da tez dos Teus mamilos. Era a consumação do embuste, mas a tortura era a torção… os punhos girando em sentidos opostos, emparelhados no reflexo da atividade e da incitabilidade.
Gemeste. Inevitavelmente drogada. As pupilas chocalhavam languidez. O Teu cérebro encontrava-se irrigado com endorfinas suficientes para suprimir tudo o resto além dos pensamentos na Tua mente e das sensações na Tua pele. Palpitações elétricas faziam-te comprimir as coxas, submergindo-Te no fundo do oceano… ou ancorando-Te num asteroide que vogava pelo espaço. De qualquer forma, ficas atracada na certeza de que jamais poderás dizer que não Te levo a viajar.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Rastro


Havia marcas nos seus braços. Sulcos. Vincos de paixão que descreviam círculos concêntricos ao longo dos seus braços. Uma impressão esculpida em espiral pelo abraço compressório no qual a havia tentado fundir consigo. Depois, assomou uma pontada ao longo do seu rabo. Suave, entorpecida… mas quando se sentava ou movimentava, aquela ferroada aflorava resplandecente, tal como o dia no qual lhe foi ministrada. Ela sentia que existia menos pele e carne entre o mundo e os seus nervos.
Palavras… também flutuavam pelo éter algumas palavras lânguidas. Meia dúzia de sons inarticulados, adejando letras como fragmentos de uma explosão. O universo parecia um código e quando se sentia rebocada pela sua gravidade, tentava decifrar o espólio da batalha. Ele e os seus dedos continuavam na sua garganta. O polegar mantinha sob ameaça a sua traqueia, pronto a barricar-se naquela passagem vital. O resto dos seus dedos serpenteava pela linha do seu maxilar e Ela apenas tinha de tocar na pele que servia de trilho para recobrar a sensação de alívio, retomando o fôlego.

Aqueles detalhes representavam mais do que meros lembretes. Eram evidências! Suas testemunhas. Um coro de vestígios que entoava devassidão, assinalando locais de passagem. Tocar-lhes era recordar… e validar! Ratificar a realidade do ato… e a possibilidade de réplicas futuras. As marcas eram uma promessa.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Nostalgia


Havia feitiço na contemplação. As sensações eram caprichadas pelo arremesso involuntário das ancas, pela destreza da sua língua, pela fricção de toda a extensão, pela reverência labial… mas havia sortilégio na observação.
Ali, a depravação atingia píncaros, observava como os lábios dEla embrulhavam a sua glande e como aqueles olhos lhe miravam em contrapicado. Ele poderia congeminar mil pensamentos atrás daquelas pestanas, cada qual denunciado pelo subtil sorriso que Ela ostentava, apesar da forma como lhe alojava bem dentro daquela boca cálida. Era uma noção forasteira, colocar-se como recetor. Sentia que deveria cerrar os olhos, deixar-se varrer pelas ondas sensoriais. Todavia, precisava de prestar testemunho. Gravar aquele momento. Registar cada nuance. Não lhe bastava ter apenas um sentido saciado e persuadido. Desejava todos em estado de alerta. Daí afogar a ponta dos seus dedos para afagar o seu cabelo sedoso. Daí aquele súbito assalto ao céu da sua boca, forçando um gemido e um carpido. Descerrando o seu olhar na sua direção, vislumbrando um ténue lacrimejar engasgado, avolumando à medida que aqueles olhos projetavam um sorriso.

«Amo-Te!»

A voz dele era um sussurro, pelos motivos óbvios. E pelos óbvios motivos, o sorriso dEla cresceu mais um pouco. Ela plantou um beijo na ponta do seu desejo e ele prontamente o empertigou para colidir com os seus lábios. O resto… bom, o resto é um mantra que recita devotamente pelas noites. Noites em que desperta na expectativa de uma experiência onírica... e adormece na certeza real da respiração que o embalou.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Sexo de Perdição


Tudo aquilo que preciso é de uma janela para a Tua alma e de tempo para me sentar a contemplar.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Ares


Engasgou-se na primeira estocada. A sua coluna arqueou em conluio com o “O” formado pela sua boca. Revirou os olhos, as mãos colheram um punhado dos lençóis e murmurou algo que poderia ser um «foda-se» ou algo ininteligível… um suspiro primitivo que representava a evocação de uma emoção ao invés de algo para devida compreensão.

Recuei… Arremessei… e engasgou-se novamente. O combate era bélico. O meu polegar ameaçou a sua traqueia e os restantes dedos sitiaram o seu pescoço. A pressão era crescente. Escoltava todos os seus sinais, aguardando que tentasse engolir, libertando o lençol e detendo o meu punho. Desfiz o cerco quando a sua mão oscilou. Tentou tragar golfadas de ar, mas impedi o desafogo clamando os seus lábios num beijo agressivo. Ela não se importou. Limitou-se a gemer e a beber qualquer coisa que forçasse pela sua boca… fosse língua ou ar reciclado.

«Foda-se!»

A primeira consoante delongou-se pelo tempo necessário para reforçar o poder de purgação das sílabas contidas naquela palavra. Soltou o lençol, embrulhou os seus braços ao meu redor, escalou em mim e entrincheirou as suas unhas na minha carne. Era a minha vez de titubear. Talvez conseguisse manter a minha altivez, mas o remoinhar daquelas ancas desarmou-me ao tentar friccionar a minha glande naquele ponto… ali! Naquele ponto de ignição que a devolveu violentamente aos lençóis.

«Vira-Te! Mãos! Joelhos!»

Não havia tempo para construções gramaticais. Apenas verbos e nomes. Um vocabulário espartano executado em prol da eficácia. Ela obedeceu prontamente e tomei rapidamente vantagem. As minhas mãos tomaram o território familiar daquelas ancas e a colisão concretizou-se. Ela engasgou-se, mas desta vez foi diferente. Desta vez, tinha-a invadido, tão profundamente quanto me era possível. Desejava tomá-la de surpresa, observando o espanto ecoando em espasmos pelo seu corpo. Desejava que Ela me engastasse no seu desespero e na sua urgência. Desejava constatar desconforto e excitação, alastrados pelo seu rosto na vaga de uma bela confusão. Pois aquelas ancas representavam o labirinto onde desejava enterrar o meu coração… um nicho para a minha pulsação.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Intermitente


O cursor era insistente. Não necessariamente rude, mas pertinente. Um pedal de bateria unidimensional, compassando o tempo como um metrónomo. A página daquele e-mailpermanecia em branco. Não por falta de pensamentos. Eles acotovelavam-se para encabeçarem a missiva, mas de alguma forma haviam emperrado no portal. Ele não sabia por onde começar. O cursor piscava. Arqueava uma sobrancelha, olhava-o de relance sob a sua vigilância. Sim, ele sabia que tinha de o escrever hoje. Mas porque não amanhã? Que diferença faria um dia?
Suspirou.
Lá fora o planeta continuava a girar, tal como está acostumado a fazer. Um homem era engolido pela escuridão depois de atravessar a passadeira em direção à marginal. Os semáforos associavam as suas luzes com os enfeites natalícios. Lá dentro, Monkey 47 voluteava no seu copo, dançando com uma rodela de gengibre e três bagas de zimbro. Os seus dentes mastigavam o lábio inferior, enquanto meditava sobre palavras apropriadas. “Olá” seria demasiado impessoal, “Querida” era profundamente desajustado e incluir apenas o seu nome revelaria alguma espécie de quezília. Ele afunilou o olhar, franziu a sobrancelha e concentrou-se irredutivelmente em jorrar palavras da sua mente, munido pela força de vontade. Fincou os pés no solo, ajustou a postura e plantou os dedos no teclado. Se aparentasse escrever algo, talvez os seus dedos encontrassem forma de completar a tarefa que o cérebro procrastinava.

«É fundamental para mim escrever-te algo. Desconheço a nascente do curso destas palavras, mas desejo ardentemente que desaguem no teu âmago, pois representas o meu Estuário.»

Patético. Ridículo. Execrável.
Pressionou a tecla delete, apagando todas aquelas palavras.
O seu dedo indicador açoitava os lábios, num acorde peculiar, enquanto fitava novamente aquele cursor.
Naquele raio de atitude comiserada.
Agora sim, parecia rude.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

καρδία


Se eu pudesse beijar-Te,
Através destes fios, destas ondas, destes pixels,
Afagando os lábios que essas palavras reflectem neste monitor,
Assim o faria.
Aninharia a Tua mão na minha e escutaria as Tuas histórias.
Partilharia conTigo uma garrafa de vinho, embriagando-me na Tua vida além de ficheiros *.jpeg ou *.gif.
Embrulharíamos as vozes ensandecidas das nossas mentes, sobre sonhos e pesadelos, sobre ideias e extravagâncias.
Eu poderia amar-Te.
Eu amo-Te!
Não da forma que a maioria dos leitores destas linhas conjectura.
Não da forma que iria envenenar as restantes relações que nos enleiam.
Seria um Amor que gera Poesia e múltiplas expressões artísticas.
Seria um Amor decifrável apenas sob a nossa égide.
Algo forjado através de uma rede de algoritmos blogosféricos… belos, forasteiros e desbravados.
Algo pelo qual zelaria uma vida inteira.
Pois dás velas ao meu coração e constelações aos meus vocábulos.
E tudo o que eu desejaria era que tivesses noção de como tudo isto é sobre Ti.
De como todo eu sou Teu.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Pulsão


Podia dar-Te tudo!
Não seria assim tão complicado, pois cada um dos Teus desejos encontra-se grafado na Tua pele com tinta permanente. Os Teus olhos são autênticos pregões… dedos de espuma no meio de uma multidão… sinaleiros. Uma estocada sumária aqui, uma palmada nevrálgica acolá e serias manteiga derretida na palma da minha mão. Simples! Todavia, porque teria de ser assim tão compadecido, outorgando-te tudo? Qual seria o louvor de tal concessão, aparte de um prazer arrebicado, profundamente sensaborão? Nada mais do que um elixir insípido para enxaguar e cuspir. Sem polpa para saborear e degustar. Não há consideração nessa entrega, apenas antecipação. Meros segundos de expectativa e a disseminação fica consumada na Tua língua, no Teu peito, entre as Tuas pernas. Realizado, mas sem qualquer Sentido de Realização. Antes da destilação, prefiro (e preciso) que tudo fermente na Tua mente. Um pensamento que fervilha até chegar ao ponto de ebulição, perpetuando a realização do Desejo como algo fervente, arrebatador, premente e abrangente.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

exCITAÇÕES


(...)

Do it, do it, do it now
Say it, say it, say it now

Do it, do it, do it now
Say it, say it, say it now

That you're my number one guy

I was hoping with chance
You might take this dance

'Cause I'm still alive who you love

Still alive for you who you love

(...)








(Fui a Praga há semanas, aproveitando para ver a deliciosa Elena e restante Companhia, num autêntico concerto subterrâneo de garagem... memorável! Sábado, ela voltou a enamorar-me, desta feita pelo Coliseu da capital. É uma daquelas bandas que desejava ardentemente só para mim... dolorosamente bela, atmosférica e profundamente envolvente. Eles já eram perfeitos com covers, mas servindo-se de uma criação de Bon Iver e outra de Hot Chip, apresentam-se sublimes até em mash-ups)

Cardióide


Por hoje, que se fodam as cordas, as algemas de tornozelo, o plug, a chibata ou até a mordaça!
Que se foda igualmente a indumentária, pois não precisas de Te vestir para isto.
Cedamos apenas ao movimento, ao sentimento, à gravidade, ao ímpeto, ao impulso e à inércia. Um contra o outro, carne contra carne, sentidos pintando um quadro vívido de veemência sexual até retesares no instante de prazer que te oblitera do mundano e arremessa na plenitude. Hoje, não há necessidade de bordadura. Proliferemos como um Conjunto de Mandelbrot, em padrões de réplicas e mais réplicas ad infinitum… como se o filamento dos encadeamentos albergasse as respostas para todos os mistérios existenciais. Contudo, hoje não precisarás disso. Precisarás de mim! Das minhas mãos e do furor das minhas estocadas, que Te enterram como se desejasse irromper a Tua cabeça pelo solo chinês.