sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Anastasis


Ela tinha um método peculiar para sobrepujar as cercas e o arame farpado que dispunha como resguardo durante vinte e quatro horas. Ela havia encontrado a célula onde escondia o Monstro e acariciava a minha cabeça de forma ousada e destemida. Naquela primeira semana, nunca explorei os seus limites. Continha-me o suficiente para me apresentar sem os meus trovões mais ribombantes, de forma a não afugentá-la para debaixo das cobertas. O calor do seu corpo no meu colo era como um mapa meteorológico. Quente no seu peito, onde havia derramado a cera. Arrefecida nas suas mãos, onde os nós se haviam revelado demasiado apertados. Naquela primeira semana, nunca nos olhávamos depois do clímax. Imperava a cegueira, a surdez e a mudez. Limitava-me a gravitar as minhas mãos sobre Ela como se de nuvens se tratassem, emaranhando os meus dedos nos seus cabelos como se fossem teias de aranha. Ficávamos deitados durante minutos. Durante horas. Durante dias. Até sermos granito… mármore… uma efígie… um jacente. Os residentes imortais de Pompeia, carbonizados e sem rosto.

Então despertámos. E mergulhámos na realidade quotidiana. A nossa terra encontrava-se repleta de vielas. Estradas residenciais decalcadas entre a urbe, deliciosamente idílicas na sua solidão. Vedações forjadas a ferro, protegendo jardins e janelas amplas, que espiavam as suas vizinhas, germinadas a partir de um tecido gémeo, mas personalizadas com os torvelinhos dos seus moradores. Tudo parecia familiar, mas havia uma clara impressão forasteira. Era uma terra de todos… e uma terra de ninguém. Estendi-lhe a minha mão e orientei-A pelas minhas rotas. No final daquela primeira semana, o torpor havia cedido ao fulgor. As marcas na pele suplantavam a simbologia de mil tatuagens e o rubor da carne proclamava a mística chama que solda almas de forma indelével. 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Prisma Identitário


Quando Te avistei pela primeira vez
A noite já era apenas um dígito.
Estava numa fila sombria de homens
Dispostos
Na calçada da mesma rua
Onde estacionaste o Teu carro.

Escutaste-me numa tertúlia
De burburinhos e risos lascivos
Penetrantes
Até me aperceber que Te abeiravas.
Então sufoquei qualquer sonância
Honrando o solo dos Teus saltos altos.

Quando Te avistei pela primeira vez
Estava numa fila sombria de homens
E cada um deles
Desejou-Te de uma forma veemente
E distinta.
Cada um deles… era eu!

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Pérgula


Um dia
Irei mostrar-Te
A sujidade sob as minhas unhas
E saberás,
Não apenas
As sepulturas que cavei
E as coisas que enterrei
Mas também
As ervas daninhas que arranquei
E o abrigo florido que Te cultivei.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Ben-wa


Preparar café pela manhã antes de voltar para a cama parecia batota, tendo em consideração que nem sou grande apreciador de cafeína. Era contraprodutivo. Todavia, aquele primeiro gole dissipou qualquer vontade remanescente de me voltar a deitar, enrolando-me nEla sob as cobertas. Ela ainda dormia, entre aquele caixilho imaculado de cabelo deliciosamente despenteado. A luz do Sol invadia o quarto com tropeções dignos de uma noiva embriagada.

«Vamos dar um passeio.»

Ela mexeu-se ligeiramente, pestanejou os olhos e afundou a cabeça nos lençóis. «Hmm?», foi a única onomatopeia que conseguiu articular como resposta. Perfeitamente expectável, diga-se em abono da verdade.

«Vamos passear. O dia está bonito e o parque fica a menos de um quilómetro.»

Ela agitou uma mão na minha direcção, tentando dispensar-me com um gesto aristocrático, contestando a minha ideia como algo absurdo. Contudo, não iria abrir mão da minha tenacidade.

«Vou tomar um banho rápido. Quando terminar, quero-Te fora da cama, envergando um dos Teus vestidos e com, pelo menos, meia caneca desse café bebida.», destilei as palavras no seu ouvido como se fossem sugestões hipnóticas, com a lentidão ritmada da dicção de um psicólogo.

Ainda se encontrava meia sonolenta quando iniciamos a digressão matinal. Felizmente, a cafeína estava a fazer um pequeno esforço para lhe conceder postura, expandindo paulatinamente o seu raio de atenção.

«Porque trazes uma sacola?»
«Prevenção. Não vá surgir algo digno de ser fotografado. Já agora, dormiste bem?»
«Oh… mais ou menos… não paravas de estender a tua perna contra a minha, roubando-me o sono!»
«Peço desculpa. Da próxima vez, prometo sonhar com mármore e líquens. Para ver se fico imóvel como uma pedra.»

A sua gargalhada ecoou pelas árvores de forma peculiar, salpicando e varrendo as folhas antes de fenecer de forma abrupta. Até que avistei as raízes mais volumosas de uma singular assembleia de árvores que prontamente lhe apontei.

«Vamos ali. Lembro-me que a vista naquele local é particularmente sublime.»

Ela franziu uma sobrancelha. Por um momento, julguei que iria retroceder nos meus intentos e solicitações inesperadas. Não seria propriamente problemático se o fizesse, mas iria despedaçar a ilusão de passeio alegre matinal antes dos meus reais desígnios entrarem em cena. Mas Ela sempre foi dotada de raciocínio atempado e a cafeína unida à brisa fresca que se fazia sentir já a haviam despertado completamente. Deambulou até às árvores, colocou-se no meio daquelas raízes espessas e rodopiou pavoneando-se num espetáculo privado. Colocou em forma de gozo sedutor o dedo indicador entre os dentes, fingindo inocência.

«Eu sabia que daqui se avistaria uma paisagem digna de registo.», o meu sorriso não poderia ser maior, «Mas será que…», olhei em volta, perscrutando as redondezas entre os troncos antes de A encarar novamente, «… não deverias espreitar melhor, para averiguar se não existe uma cenário ainda melhor?».

A minha voz baixou consideravelmente, mas ainda soava como o ribombar de um trovão longínquo. Como se as areias do leito de um rio se houvessem transformado em seixos. Ela pausou um bocado, depois voltou-se, deu um passo inclinando-se para a frente, agarrando duas bétulas mais estreitas e empinou o rabo na minha direção. A pose era digna de um programa televisivo inominável, mas ela imprimia-lhe a sua singular dose de melodrama. Algemei-A subtilmente. Não houve rumorejo, olhos espraiados ou lábio mordido. A sua vontade e predisposição, quanto muito, apenas me concederam um ligeiro ronronar.

«Ao menos, poderias fingir espanto, não achas?»

Vislumbrei-A a sorrir, a depositar os olhos divertidos no manto de folhas à sua frente e a arquear ainda mais sedutoramente aquela coluna.

Peguei na extremidade do seu vestido e puxei-o para cima, expondo as suas delicadas cuequinhas e aquele par de coxas deliciosas. O barulho da minha mão a desabar naquele rabo ecoou igualmente pelas árvores em redor, mas desta vez não morreu de forma inopinada. Houve uma segunda, depois uma terceira palmada estalando com a subtileza de um galho quebrado por uma passada, no meio de uma cena de fuga repleta de suspense.

«Se continuares assim…», vacilou enquanto cerrava os olhos e espremia o rosto afogueado contra a bétula fresca, «… as pessoas vão ouvir!». Gemia e arfava de excitação, mas decidi cessar a ténue sova, esfregando a minha mão no rubor daquelas nádegas, sentindo literalmente o calor a irradiar.

«Talvez o propósito seja justamente esse. Ou então, talvez o propósito seja o risco…», retirei a minha mão do brasão daquela pele de porcelana e Ela certamente escutou o tilintar no interior da minha sacola. «Mas tens razão… talvez seja melhor mudarmos para uma atividade menos audível.»

Os meus dedos estavam nEla, contra Ela, friccionando-A através da roupa interior bem molhada. Mantinha-os insistentes, propositadamente condescendentes na carícia. Sem tocar demasiado forte, nem demasiado rápido, nem demasiado deleitoso para a fazer esvaecer completamente no momento orgástico. Deixava-A apenas no portal da sensação de busca intoxicante do prazer e respetiva transcendência. Tão intoxicante, que quando um objeto redondo e frio a invadiu depois dele afastar as suas cuequinhas, tudo o que Ela conseguiu deixar escapar foi um «Foda-se!»… seguindo-se sem delongas uma nova bola, investida e alojada naquela cona que se aprestava a aninhá-las no seu interior. O meu rosto refletia o deleite daquela visão. Retirei-lhe as algemas e deixei-A dar um passo atrás.

«Bom, vamos regressar a casa? Que me dizes?», aticei com sorriso criminoso.
«O QUÊ?!», resmoneou… endireitando-se combalida pela sensação provocada pelas intrusas.
«Será divertido! Prometo que elas não Te distrairão.»

Tomei a sua mão e afastei-me um pouco dEla.

«Mostra-me que consegues caminhar com elas.»

Houve alguma preocupação na minha voz, mas passou-lhe despercebida. Deu uns passos atrás para se testar. Cada passo que Ela dava, conferia-lhe uma movimentação distinta. Contrariamente ao que havia prometido, elas seriam bastante distrativas.

«Perfeito… está na hora de revoluteares essas ancas. É menos de um quilómetro até casa.»

Todas as suas bochechas coraram.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O Fulgor do Fervor


A forma como ele bateu à porta era uma pista bem sugestiva de como não existiria uma entrada em cena com pezinhos de lã. Ele iria transpor aquele umbral sem um «Olá», exceto daqueles que se enterram entre os lábios dEla, ou se encontram na estocada de um dedo entre as suas coxas. Algo perlongava a abertura da porta. Talvez a hesitação dEla se devesse a uma mistura de degustação do momento ou à ansiedade que atava o seu estômago num nó de marinheiro. O trinco estalou finalmente e a maçaneta rodou com determinação e respiração curta.

Ele entrou, não de rompante, mas prontamente. O seu movimento não foi apressado nem precipitado, mas gracioso, resoluto e pleno de vivacidade. As mãos tomaram conta dos seus punhos. Forçou-A a recuar até ao espelho comprido que tinha no hall de entrada. Nele, conseguia vislumbrar o seu reflexo… apenas um dos lados da sua face… e lembrou-se do Fantasma da Ópera. Riu, para consigo próprio. Beijou-A… torneou a sua cintura com a mão espalmada… alcançou a sua barriga lisa… desceu… e elevou-A no seu colo quando se apoderou da sua coxa. Transportou-A para o quarto, sempre com os lábios emparelhados numa comunicação indissolúvel e arremessou-A para a cama. O chocalhar da fivela do seu cinto alertou-A. Arregalou os olhos. Mordeu o lábio. E o sorriso dele alargou. Percorreu então a curta distância entre ambos e afundou os seus joelhos na cama, com o cinto apertado na sua mão.

«Pensava que me irias amarrar…», a voz dEla era mais branda que a dele, mas igualmente excitada.
«Julgava que a impaciência da libido definhava com a passagem do tempo pelas relações…», fustigou divertido a sua anca com o cinto. Sem força para a fazer sentir magoada. Apenas para lhe imprimir uma ferroada. A resposta foi um sorriso, enquanto se contorcia. Abriu então a boca dEla, encaixou o cinto entre os seus dentes e beijou a extremidade do seu nariz.

«Claro que Te vou amarrar. Mas primeiro, quero divertir-me um pouco mais, pois não terás muita liberdade depois de prender essas mãos…», beijou-A agora na testa, «… e bem sei como essas mãos conseguem ser bem divertidas…»

Ela sorriu e contorceu-se um pouco mais, antes de deitar mãos à obra, encontrando o comprimento da sua excitação e espremendo-o. O gemido que A varreu resultou na sua almejada recompensa, funcionando igualmente como lembrete de uma das características que ele mais apreciava nEla:

«Adoro a Tua rapidez de raciocínio!»

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Where the Wild Things Are


Apaixonei-me
Por uma rapariga
Que colhia flores
Em vez de discussões
E não tinha disponibilidade
Para coisas más
Pois encontrava-se
Prudentemente aconchegada
Num Sítio de Coisas Selvagens.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Semiologia


Claro que há deliberação!
Há um propósito e tenho especial interesse em atingi-lo. Quero ver as Tuas reações! Quero avaliar o que sucede se beliscar o Teu mamilo. Quero ver quão rápido transfigura a sua adorável maviosidade em turgidez encarniçada. Quero torcê-los após a beliscadela, para conferir as diferenças na reação. Quero observar a Tua expressão quando alojas os meus dedos entre os Teus lábios. Quero descobrir como soas quando Te vens. Quero descobrir como suas quando Te vens. Quero assistir aos Teus soluços catárticos. Quero assimilar como a Tua mente processa tudo isto, onde um «foda-se» descende a uma súplica ininteligível, algures entre um «sim» e um «não», mas jamais perto de um «para!». Quero descobrir se és o tipo de mulher que me beija imediatamente na boca, ou se começas pelos meus ombros, ascendes ao meu pescoço e perseveras lentamente num trilho até aos meus lábios, ajustando gradualmente a mira até atingires o alvo.

Eu fodo como um cientista em busca do Bosão de Higgs. Como um médico que porfia na descoberta da cura para a doença de Creutzfeldt-Jakob. Como um psicólogo desesperado por assistir a uma epifania do seu paciente. Como vês, não se trata propriamente de desapego emocional em prol de investigação emotiva. Desejo apenas apreender todos os Teus sentimentos, pois os meus não são assim tão pertinentes para mim... por enquanto...

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Folhear


Havia uma vírgula,
Entre duas frases de um Poema.

Massajava a sua pele
Lambendo a ponta dos meus dedos
Como um leitor
Que se apresta a virar uma página.

Tudo o que Ela queria
Era encontrar um Lugar
Para distender os seus ossos
Para estirar os seus sorrisos
E retesar os seus cabelos.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

exCITAÇÕES


(…)

Take the makeup off your eyes
I've got to see you, hear your sacred sighs

(…)

You can cry; I won't go. You can scream; I won't go
Every man that you know would have run at the word go
Little boys with their porno, oh, I know they hurt you so
They don't know what we know. Never know what we know

And all your makeup, just take it all off
I've got to find you before the line is lost
I know I hurt you, I won't deny it
When I reach for you, you say, "I'm over it."
But I know

(…)

So love is real like a disease.
Come on tell me please,
I'm not over it
I'm not over it

(…)


sábado, 18 de janeiro de 2014

Mantra


Sê vasto!
Recusa-te a definhar.
Afinal de contas, um oceano não desemboca num rio.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Peçonha


O estranho e o singular atraem-me… excitam-me!
Tenho uma perdição por lábios. Por essas excêntricas pregas carnudas repletas de terminações nervosas. A primeira vez que A beijei, mordi-A. Desejava apurar dessa forma crua e imediata a sua réplica. Imagino que tenha doído bastante, pois a resposta foi imediata e fui mordido com equivalente ferocidade. Creio que a minha ferroada foi maior, digna do lobo mau, em virtude de ter dentes maiores. De qualquer forma, estimulei-A a beijar-me mais intensamente, alcançando todo o encorajamento de que necessitava. Sendo que hoje em dia é difícil evitar mordê-los… é impossível privar-me de rebocar aquele lábio inferior até estalar de regresso aos seus dentes.

Cada beijo, cada dentada tem sempre uma reação distinta. Por vezes acanhada, outras vezes agressiva. Posso colocar o meu polegar nos seus lábios, forçando-A a sugá-lo como uma criança, mas umas vezes serei mordido e outras vezes arrecadarei uma lambidela. Cada experiência traz uma questão… e cada experiência traz uma resposta. Adoro essa delicada incerteza oval. Prefiro valorizar a escolha da ação em vez da resignação à reação. Ela pode morder, beijar, sorver, ferrar, chupar, lamber. Ela pode escolher o veneno que lhe aprouver, que eu jamais buscarei o antídoto.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Génesis


Fiz uma pulseira
Com restos de corda e beijos molhados
Para adornar o Teu punho,
Mas medrou consideravelmente.

Então, fiz um colar
Com beijos pendurados
Por lábios quentes
Contra o Teu pescoço de porcelana.

No final do dia
Tornámo-nos fragmentos
Onde dois pés viraram quatro
Jornadeando
Para longe de tudo
Retornando à selva
Com histórias
De como o Primeiro Homem
E a Primeira Mulher
Edificaram um Mundo Novo
Alicerçado em palavras,
Na palma de uma mão
No veneno de uma serpente
E em dez mil dentadas.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Batuta


Independentemente daquilo que eu faça ou do Teu estado de espírito, há sempre um beijo à minha espera quando cubro a Tua boca com a minha mão. Doce e meigo, funciona como o Canto do Cisne antes de sucumbires ao estado de alerta emudecido quando pressiono os meus dedos contra as Tuas bochechas e os ossos do carpo contra a Tua mandíbula.

Sempre achei que os Teus olhos ganham mais vida quando Te faço isto, da mesma forma que a audição se torna mais apurada quando somos privados da visão. Tornam-se mais vívidos… ardentes… com as tonalidades da íris pululando desenfreadas.

«Porque será que ficas bem mais vigilante quando te exproprio da capacidade para ver, ou falar? De todas as vezes que Te vendo, pouco falta para esses ouvidos se transformarem em pratos de satélite, girando na direção das ondas sonoras… e quando tapo essa boca…», pressionei a palma da minha mão para enfatizar as palavras, «… tornas-Te na pessoa mais tagarela do planeta!».

Devolvi o reinado ao silêncio, como que expectante das Tuas tentativas para formar alguma espécie de resposta através da minha mão. Contudo, apenas colhi uma sensação de lábios distendendo num sorriso sob a minha garra.

«Justamente!», murmurei determinado a transformar as Tuas expressões em sílabas e depois as sílabas em gemidos, num emaranhado de vogais sufocadas. Movi a minha outra mão em direção ao Sul, cobrindo a Tua cona com a afoiteza que empregava para Te cobrir a boca. Irmanando a pressão, até enroscar a ponta dos meus dedos… sendo que um deles se destacava em audácia aos demais.

«E depois, há todo este silêncio para preencher...», sorri aumentando a pressão do tal dedo sobre um determinado ponto, «Até que um membro da audiência que se encontra em cativeiro, se apreste para uma ovação.»

Estas derradeiras palavras estavam mais próximas de um adágio. Enrolaste os vocábulos dentro da Tua boca como trufas de chocolate, até que finalmente derreteram na Tua língua.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Chuva Convectiva


Cai uma chuva fria
E os sapatos enlameados
Ficam de sentinela à porta.

Os casacos pingam
Pendurados no hall de entrada
E a chuva possui uma voz.

O telhado e as janelas
Entoam a sua linguagem
Enquanto despes as roupas ensopadas.

No canto do compartimento
Silêncio… sinto-me pó…
Ou uma teia de aranha.

Tácito… Encurralado
Até o olhar da Tua desatenção
Perpassar o meu.

Então despes-me
As roupas juntam-se no turno dos sapatos
E os corpos resvalam.

Um no outro
Como os casacos no hall de entrada
E o nosso Amor é a chuva.

Essa chuva que declama
Nos murmúrios de mãos e lábios
Que chovem sobre Nós.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Felídeo


O comportamento felino está associado ao sexo feminino. Porém, ele movimenta-se sorrateiramente… e quando Ela dá por ele, com os seus olhos furtivos sondando-A como uma presa… desvia o olhar… como se ele agitasse de certa forma a cauda para A distrair… hipnotizar… entreter… enquanto escuta a sua circulação sanguínea… sob as veias e artérias do seu pescoço.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Νίκη


O ritmo abrandou e abriu-se uma janela de tempo para respirar. Tu contorcias-te na cama, lânguida, como uma cobra tentando trocar a sua pele. Havia algo ao longo das Tuas linhas. A linha das Tuas sobrancelhas era como um aviso preguiçoso, repleta de carinho e deferência, com imperativos subconscientes que me alertavam para a responsabilidade que depositavas nas minhas mãos… literalmente. Era um olhar quase fofo… idêntico ao olhar que uma criança exibe ao seu pai quando coloca um geode de quartzo na mão do adulto, ou semelhante à preocupação aflitiva de um incipiente que confia o seu animal de estimação ao vizinho durante as suas férias. Contudo, eu não ambicionava uma pedra, nem um cachorro. E limitava-me a sorrir perante o absurdo das considerações, até me focar na quantificação de ondulações ou maremotos que Te pretendia causar, quando voltasse a mergulhar em Ti. As minhas mãos percorreram os Teus flancos e puxei-Te contra mim. O calor da Tua pele era tal que poderia acender um cigarro no dia mais ventoso do Inverno mais rigoroso.

«Prepara-Te para voar!»

A minha voz evidenciava confiança. Soava convincente. Todavia, parecia que me tentava convencer a mim e não a Ti. Os cantos da Tua boca voltearam e o fantasma de um sorriso flutuou pelos Teus lábios. Era demasiado belo. És demasiado Bela! Mergulhei em Ti, afundei a minha boca na Tua, antes que as minhas mãos descessem abaixo do Teu umbigo. Senti o Teu calor na palma da minha mão. O ritmo acelerou e latejavas ensandecida contra os meus dedos. Gemeste dentro da minha boca e apoderei-me dos Teus cabelos, invocando-os como o vento invoca um pássaro… até que ele abre as suas asas e se deixa levar pelos céus.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Mar...


... Adentro!

Sem Papas na Língua


Pela tertúlia do círculo de sábado à noite discorríamos sobre as peripécias de uma amiga do grupo, cuja beleza tem o condão magnético de atrair papalvos altaneiros que não sabem manipular a relíquia à sua disposição. O resultado é o âmago cada vez mais umbroso de uma individualidade outrora dotada de uma luz inspiradora. Há uma extensa horda de escumalha que se oculta atrás de fachadas. Uma corja que não se sacia quedando apenas com os da sua laia, camuflados atrás de modas materiais efémeras, atrás de ostentações ocas, atrás de palavras que não lhes pertencem, atrás de contos que não narram acontecimentos reais, atrás de pseudo-intelectualidade que não passa de busca wikipediana, atrás de festas de carne dissolvidas em recetáculos vazios que tentam irrigar com esperma uma insignificante amostra de alma.

Infelizmente, há sempre uma amizade incauta que tomba na ausência de genuinidade destas execráveis criaturas. Tudo assenta em perspetiva. A minúcia do sexo não se traduz na metanálise do tipo de experiências que desejamos ter ou da erotização do nosso papel enquanto Homem, Mulher, Dominador ou Submisso. Os detalhes poderão ser orientados, mas jamais serão domesticados. Porque as sensações não se ditam de forma generalizada. O que poderá representar uma dor insuportável para uns, poderá ser um formigueiro estimulante para outros. Em tempos, conheci uma rapariga que pouco conseguia enxergar sem óculos, logo o sexo era uma bruma aprazível para ela, onde tudo era exponenciado pelos restantes sentidos. Atuando sensorialmente num tanque de privação que redefinia o significado trivializado de foco. O sexo é um envolvimento congregado, mas define-nos de forma supra-pessoal. Umas privilegiam movimentos circulares, outras preferem movimentos retilíneos… ou apenas pressão, qualquer tipo de pressão. O truque jamais será encontrar um método para tratar todas da mesma maneira. Isso seria apenas o ócio universalizado de uma operática maquinal. Resta-me acreditar que essa amiga (e qualquer Ser provido de autenticidade) encontre alguém cuja língua saiba fazer algo mais do que sibilar feitiços embusteiros. Acreditar que esse alguém terá vontade e paciência para desvendar o segredo da fechadura que enclausura a radiância do próximo. Caso contrário, não passará de mais um cabrão que apenas se deseja masturbar dentro da sua vagina.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A Cor


Quando me questiona sobre a minha definição de fogosidade, é a cor dos seus cabelos que seleciono como resposta. Quando se prepara para uma festa, é a cor do batom que ostenta nos seus lábios. Quando escolhe os seus saltos prediletos, é a cor da sola desses sapatos. Quando Chateaubriand se revela a escolha do nosso repasto, é a cor que pauta esse naco de carne. Quando degustamos o néctar dos deuses, é a cor que nos inebria os sentidos. Quando se excita, é a cor que a denuncia em várias partes do seu corpo. Quando fodemos, é a cor dos traços que almejo nas minhas costas. Quando coloca a palma da sua mão sobre o meu coração, é a cor que assoma na superfície quando as suas impressões digitais lavram uma frase sem Ponto Final. Quando se vem, é a cor da sua pulsação. Quando grita o meu nome, é a cor que matiza a atmosfera. Quando olho nos seus olhos pela última vez, é a cor definhada do meu sangue esvaído. Quando Ela me deixa, apesar dessa cor raiar os meus olhos, não é certamente a cor que testemunho.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

exCITAÇÕES


(…)

Cut my lip on a jewel-piece eye
Gonna lick and lick it dry
Spit up blood for another sweet bite
I’ll hold you down and I’ll hold you too tight.

Gonna heal on the sleeve of a heart
It’s the hand that makes its mark
See the memories around my neck
Spilling out of my chest saying
Got to be the love of my life
(…)
I’m haunted by a horny desire
Put a shadow on an inch of your thigh
(…)
Through the passages and through the streets
You whispered to me with a breath of heat
Let’s be strangers in the night
The rest was silence there was no reply
The rest was silence there was no reply
The rest was silence…
You got to be the love of my life

(…)


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Sinestesia


«Tens uma Aura distinta…»

Estas foram as primeiras palavras que Ela alguma vez me dirigiu. Era a primeira vez que as suas palavras percorriam o espaço entre a sua boca e os meus ouvidos. Palavras que utilizou para dividir o grupo da tertúlia, tal como Moisés separou as águas do Mar Vermelho. As pessoas à sua direita e à sua esquerda quedaram confusas, pois a rapariga reservada havia proferido algo e agora aprestavam-se para escutá-la. Eu não fui tão educado. A imputação buliu a minha expressão, a sombra de um sorriso travesso visitou os meus lábios e a resposta sardónica aflorou:

«Se a Tua assunção é astrológica, elucida-me sobre algo: terei Vénus ou Plutão conjunto ao ascendente?»

Houve uma ligeira pausa. A sala parecia tentar assimilar a compreensão da pergunta. Já naquela altura, revelava-se a única pessoa que me via e tentava enxergar por mais densa que fosse a névoa de perceção que me reveste. Soltou uma risada soluçada e abanou a cabeça. Numa atitude que deveria ter soado a criancice, mas provocou-me divertimento. Em vez de embaraço, senti fascínio… verdadeiro arroubamento pela criatura que inesperadamente me observava.

«Não era isso que eu queria dizer…»

Esboçou-me uma espécie de sorriso apologético, fitou os restantes olhares atentos, deu um gole na sua bebida, girou nos seus saltos e afastou-se. A sua partida tinha devolvido inexpressividade à minha presença naquele círculo de amigos. A conversa borbulhava ao meu redor, mas os meus ouvidos escutavam as deambulações daqueles saltos pela sala e o meu olhar seguia-A gravitando nas conversas dos restantes grupos até se deter pela janela. Espreitou o seu smartphone, espiou a rua lá em baixo e deu mais um gole na sua bebida. Escusando-me dos invisíveis que tinha à ilharga progredi ao seu encontro. Estaquei ao seu lado, contemplei a noite e beberiquei a minha bebida. Deixei a minha presença marinar durante uns instantes e depois regressei aos seus ouvidos.

«O que pretendias dizer há pouco?»
«Tens uma Aura que desordena os meus pensamentos. Como um sinal distorcido que apenas consigo decifrar pela metade. E escutar-te desafia o meu discernimento. É como estar embriagada.»

Sorri. Claro que sorri. Cada uma daquelas palavras era um elogio e ressoava divinamente no seu sotaque melódico.

«Como explicas tal impacto?», o raio da vaidade tinha de assomar.
«Só sei que me transmites uma espécie de conforto… o que me deixa desconfortável.», sorriu ao aperceber-se do oximoro. «Ou seja, sinto que me poderia sentir confortável à tua beira… sinto-o como algo incontornável e sem possibilidade de escolha. E eu gosto de possuir capacidade de escolha!»

Anuí com a cabeça e emudecemos durante bastante tempo. Tamborilávamos no peitoril e acompanhávamos a chegada de convidados atrasados. Farto de mirar o seu reflexo na janela, olhei-A diretamente e capturei aquele olhar de soslaio… como se tentasse confirmar que ainda me encontrava nas imediações. Circulei a vista pela sala, constatando como as pessoas tentavam desesperadamente atulhar a atmosfera com palavras, como se estivessem aterradas com a possibilidade de silêncio.

«Se Te sentes desconfortável, porque não usas a Tua capacidade de escolha para Te afastares?»
«Quem disse que não gosto de me sentir desconfortável?»

Os sorrisos enlearam-se. Um segundo passou. Depois, passou outro… e outro.
Virei-me para Ela. Aproximei-me. Encarei-A. Delicadamente, deslizei a minha mão pela extensão do seu pescoço e capturei o seu maxilar acercando o seu queixo com o meu polegar. Elevei o seu rosto na direção do meu… sustive a nossa disposição durante um momento… e beijei-A.
Derretemos na escolha do conforto daquele beijo.