terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Noite de um Sonho de Verão


Algures durante a noite
Acordámos na Grécia Antiga.
Vestíamos lençóis
E os cães revelavam inquietação
Debaixo de uma Lua uivada.

A Luz provinha de candeias
E os Teus olhos estavam escuros.
Cheiravas a Mar.
O Teu cabelo e o Teu corpo
Vertiam no meu sangue.

Mais tarde, a luz do Sol
Devolveu a contemporaneidade.
Partilhámos um beijo
Como se batalhasse com Xerxes
E chacais regougassem pelos Teus lábios.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Promessas Plantadas


O Sol espreitou e foi a Primavera quem ele relembrou. A Primavera ainda se encontrava distante... um artefacto de adorno que ainda teria de ser desenterrado dos baús sepultados pelo Inverno. Atravessou a ombreira da porta e deixou-se consumir pelos raios solares. Deixou-se preencher pela evocação da Primavera. Deixou-se preencher por ela. Os pulmões queimavam, mas ele fingia que eram resquícios de uma chama extinta. A nuvem que debandava pelos seus lábios era precisamente uma baforada, dessa fogueira que havia ardido em tempos na sua alma. Ao focar a sua atenção no céu, recordou os seus olhos. Aquele azul hipnótico no qual nadava, enquanto ela dava voltas no seu corpo. Foram mitos da Primavera. Fodiam como coelhos debaixo da Árvore e dançavam um no outro, enquanto a pele sintonizava no desabrochar do meio ambiente.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Lar, Doce Lar


Enquanto escrevia, as minhas mãos encontravam-se sepultadas na Tua pele. Percorria cada carácter com a ponta dos meus dedos e Tu espreguiçavas-Te para que lograsse chegar mais fundo, sentindo as feições de cada letra. Mais tarde, quando Te declamava o que havia redigido, falei para dentro da Tua boca, contra o Teu pescoço e entre as Tuas coxas molhadas… de onde todas as palavras jorravam… onde todo eu pertenço.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Partydos


Nunca apreciei o conceito e a execução de festas sexuais. Uma ex-namorada minha delirava com o mergulho naquela enxurrada de trivialidade de personas à deriva. Há claramente voyeurismo em mim, mas gosto de o preservar íntegro num único foco, sem ter de o estilhaçar e subdividir em múltiplas direções.
Ao entrar naquela casa opulenta das imediações da Invicta sentia-me um ornamento, transitando entre conversas, até as conversas desembocarem numa cena, liquefazendo corpos contra a mobília. É tudo dissociativo. Uma fragmentação do “Eu” que redunda numa ausência do “Eu”. Uma ausência de Presença, na qual me sentia vago, como se fizesse check-out espalhando “gorjetas” por várias “almofadas” enquanto tudo e todos retomavam o processo de esfoliação do seu âmago… até lograrem ativar a incineração do vazio. Sim, encontrava-me desperto, mas apenas no sentido mais rudimentar. Havia um casal à minha esquerda que não estava propriamente a foder… circulavam como água a descer pela canalização… sendo que a copulação era uma inevitabilidade do resultado do labor afincado de mãos e línguas. À minha direita, um gorducho estava vendado. Felizmente, o seu campo de visão não contemplava a magricela mulher das cavernas que tinha diante de si, cuja floresta entre as pernas deveria certamente abrigar corujas.

As Festas de Elite possuíam realmente um código de beleza bem mais refinado. Sim, não era a minha primeira festinha de carne, nem seria certamente a derradeira. Todavia, aquele meu sentimento de alienação, por vezes, era autoimposto. São festas que não passam de desfiles de mascotes, onde os gladiadores se sentem arredados da sua arena de (des)controlo. O caos impera. O espaço minga subitamente, porque alguém começou a galopar ou montou na sela que era usada por outro(s) há instantes.

«Deverias libertar-te da prisão dos teus pensamentos e apreciar o momento.»

Ela surgiu sorrateira. Encontrava-se obviamente nua e tinha aquele semblante desbotado de quem já havia desmanchado a compostura a evocar mil e um deuses.

«Há muito pouca substância para apreciar por aqui.»
«Para quem é que importa a substância aqui?!»
«Precisamente! Acabaste de reforçar a minha premissa sobre a insularidade de várias pessoas que se subtraem num zero absoluto.»
«Deixa-te de palavras elaboradas e usa a língua para foder. Não há qualquer hipótese de embaraços por aqui. Se fizerem algo monumentalmente estúpido, alguém intervirá para mitigar o erro.»

Por esta altura, cogitava sobre mil e uma desculpas para me livrar da sua presença, mas dei-lhe o desconto por estar claramente embriagada em endorfina.

«Que se foda! Já te amarraram hoje?»
«Achas que algum destes esfomeados perde tempo com conjeturas e apetrechos?»
«Linho ou metal?»

A sua resposta foi um olhar expectante e inesperado pela minha súbita guinada na direção. Senti-a encolher ligeiramente e aproveitei a brecha para me desencostar da parede, tomando o seu braço de assalto e firmando-o contra as suas costas enquanto a puxava contra mim.

«Deixo a escolha ao critério do negociador.»
«Pois bem. Vejamos então se sou suficientemente destro para evitar algo monumentalmente embaraçoso.»

Torneei o seu corpo, espalmei o calor que ela emanava no contraste frio da parede, beijei os seus punhos com o clique metálico, aproximei os lábios da curvatura do seu pescoço e sussurrei-lhe contra a nuca:

«Vai-te foder!»

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Correção à Unha


Talvez estejas farta de pontuação. Talvez estejas farta de vírgulas, parágrafos, versos e estrofes. Talvez estejas farta de novos acordos ortográficos e de regras gramaticais. Talvez esteja enganado… mas não me importo de voltar para a cama riscado pela Tua tinta vermelha. Quem me vai censurar tal prazer?...

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Languidez


Lá porque os meus pais são Mickey Knox e Mallory, ou lá porque és a filha bastarda de Sid e Nancy, não significa que temos de viver no limite todas as noites… nem significa que o exército boliviano se encontra no exterior de todas as portas que atravessamos. Não. Nada disso! Por vezes, sabe bem adejar o Nosso espírito epicurista num restaurante requintado, depurando o Nosso humor negro em gracejos sobre o olho de vidro do maître. Por vezes, sabe bem ficar por casa com um bom tinto duriense, uma tábua de queijos, broa e pata negra. Por vezes, sabe bem chegar a casa, rastejar para os vincos do sofá e concluir o filme nos braços um do outro.