sexta-feira, 28 de março de 2014

Adjetivação


«Deixas-me nervosa...»

Aquelas palavras transformaram os seus pensamentos em maratonistas. É claro que há alguma culpa residual no conceito que ele delineia para confiscar o seu foco, mas é um método incontornável do ponto de vista psicológico. É como caminhar numa corda bamba que fica mais delgada a cada passo, até que o pé assenta em solo firme e diante do seu olhar se espraia uma vasta paisagem de possibilidades.
Tem tantas coisas para dizer. Tantas formas para se apresentar. Tanto te(rr)or que faria a mais incauta e frígida correr desalmada para as montanhas, ou mergulhar no mais profundo dos mares, para não ter de escutar aqueles vocábulos impregnados de lascívia e perversão. Daí ele hesitar com algumas interações, pois o seu cardápio não expõe apenas ideias para entretenimento, mas realidades que se manifestam. Há segredos, omissões e excentricidades que sem a devida conexão apenas seriam alumiados com o rótulo equivocado de predador. Ela sentia-se nervosa? Será que tinha dado um passo em falso, sem solo ou corda que o valessem? Aquele passo que efetivamente desmontaria a construção minuciosa da sua ilusão? Ou será que tudo não seria tão dramático assim, revelando-se apenas a semente de dúvida que germinava finalmente a constatação de um equívoco passional, após mês e meio de gestação cupidínea?

«Deixas-me nervosa…», - declarou novamente, acrescentando desta vez um sorriso.
«Aliás, o adjetivo não é o correto. Deixas-me excitada!»

quarta-feira, 19 de março de 2014

Prestidigitação



«Como é que ele faz aquilo?»

Coloquei esta questão ao meu pai num dos primeiros espetáculos de magia de que me recordo. Quando a minha mente rodopiava na tentativa de assimilação da destreza ilusória, das pombas inesperadas, dos lenços em catadupa e de todos os clichés que não tinha idade suficiente para reconhecer. Como resposta, recebi um daqueles cumprimentos que despenteiam o cabelo de um pirralho, um sorriso e um piscar de olho. Sempre fui apreciador de uma resposta sem vocábulos, mas olhando em retrospetiva, apercebo-me que a minha questão não foi devidamente compreendida. Ele assumiu que me referia à metodologia dos truques, todavia, a efemeridade nunca foi um dos meus propósitos. Indagava-me sobre como é que ele fazia aquilo… sobre como é que ele enfrentava o palco, conjurava os seus estratagemas e projetava um ar de mistério e sobressalto, como se tudo também fosse uma surpresa para ele, desconhecendo inclusivamente o logro. Como é que ele dominava toda aquela atmosfera de assombro e se mantinha tão entretido como a sua assistência?

Como é que eu faço isto?
Como é que a fuzilo com palmadas até ficar encandeado pelo vermelho encarniçado da sua pele, sabendo que irei asfixiá-la com afeição desmedida no instante em que a sentir a esfiapar pela sua orla rendilhada? Como é que lhe desfiro uma saraivada de insultos lascivos, sabendo que lhe estenderei um guarda-chuva sempre que avistar como vacila quando lhe testo com algo menos genuíno? Como é que lhe crio uma atmosfera de violência deliciosamente transgressora, sabendo que não há perigo na formação de nebulosidade repleta de trovões do temor?
Não se trata apenas de técnica, nem de experimentalismos extáticos como ignorar por breves instantes a evidente glande clitoriana, concentrando atenções na tração do capuz clitorial, invocando o dilúvio com dois dedos enfileirados na invasão de uma formação em “u”, enquanto a palma da mão roçaga ensandecida.

Trata-se mesmo de Magia. Não propriamente de Feitiço. No meu entendimento, a astúcia das manhas perdia o seu lustre no momento em que o segredo da sua execução fosse revelado. Logo, qual a razão para o Artista porfiar, quando tinha conhecimento de cada um dos rolamentos da engrenagem? O enigma para o desempenho do mago tinha obviamente de ser solucionado de mangas arregaçadas e sem qualquer venda, pois era tudo uma questão de perspetiva. Eu não deveria estar atento ao Mágico, mas à sua plateia. Ele buscava as suas réplicas, pois apesar de entenderem como tudo não passava de uma artimanha efémera, a sensação de deslumbramento arrebatava-os do mundano. Ações demandam Reações. E tudo aquilo que desejo é viver em cada uma das dEla. Desde os seus suspiros terrenos, até às suas erupções transcendentais.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Sexo de Perdição


Prismas… há prazer e há dor… há ternura e há crueldade… faces graciosas de uma moeda conceptual… transformação… o meu próprio momento Jekyll/Hyde…

terça-feira, 4 de março de 2014

exCITAÇÕES







(…)

I meet you. I remember you. Who are you? You’re destroying me. You’re good for me. How could I know this city was tailor-made for love? How could I know you fit my body like a glove? I like you. How unlikely. I like you. How slow all of a sudden. How sweet. You cannot know. You’re destroying me. You’re good for me. You’re destroying me. You’re good for me. I have time. Please, devour me. Deform me to the point of ugliness. Why not you? Why not you in this city and in this night, so like other cities and other nights you can hardly tell the difference? I beg of you!

(…)


“Hiroshima Mon Amour”, de Alain Resnais