sexta-feira, 28 de março de 2014

Adjetivação


«Deixas-me nervosa...»

Aquelas palavras transformaram os seus pensamentos em maratonistas. É claro que há alguma culpa residual no conceito que ele delineia para confiscar o seu foco, mas é um método incontornável do ponto de vista psicológico. É como caminhar numa corda bamba que fica mais delgada a cada passo, até que o pé assenta em solo firme e diante do seu olhar se espraia uma vasta paisagem de possibilidades.
Tem tantas coisas para dizer. Tantas formas para se apresentar. Tanto te(rr)or que faria a mais incauta e frígida correr desalmada para as montanhas, ou mergulhar no mais profundo dos mares, para não ter de escutar aqueles vocábulos impregnados de lascívia e perversão. Daí ele hesitar com algumas interações, pois o seu cardápio não expõe apenas ideias para entretenimento, mas realidades que se manifestam. Há segredos, omissões e excentricidades que sem a devida conexão apenas seriam alumiados com o rótulo equivocado de predador. Ela sentia-se nervosa? Será que tinha dado um passo em falso, sem solo ou corda que o valessem? Aquele passo que efetivamente desmontaria a construção minuciosa da sua ilusão? Ou será que tudo não seria tão dramático assim, revelando-se apenas a semente de dúvida que germinava finalmente a constatação de um equívoco passional, após mês e meio de gestação cupidínea?

«Deixas-me nervosa…», - declarou novamente, acrescentando desta vez um sorriso.
«Aliás, o adjetivo não é o correto. Deixas-me excitada!»

terça-feira, 25 de março de 2014

Sazonada


A Estação
Pertence-Te.

Amadurecida.

Pelas Tuas entranhas
Rastejavam insetos.

Escorraçados pelo Sol
Que Te banha entre folhos.

Suspensa pela inquietude
Que demanda a colheita
De mãos indiscretas.

Estremeces
Por uma dentada
Que escorra
Pelo meu queixo
Pelo meu punho
Entre os meus dedos.

sexta-feira, 21 de março de 2014

O Resto do Rasto


Como permear um Lugar? Como impregnar a nossa presença na concisão de quatro paredes, desafiando os limites do confinamento? Como fazer com que depois de me teres, Te seja completamente impossível voltar ao tempo em que não me tinhas?

Será sempre o encantamento induzido por lembretes numa plataforma sensorial. O cheiro nos lençóis, cujos vincos narram autênticas epopeias. O ponto em comum entre uma barba por desfazer e um sopro. A marca que o metal das algemas deixou na mesa-de-cabeceira. O arranhão das unhas na haste da cama de dossel. O fantasma de um perfume, que se esconde pelos recantos do quarto, pronto para uma emboscada. Uma panóplia de máquinas do tempo, operacionais e céleres na ativação de atos que sobrescrevem a associação gerada por crepúsculos esfaimados. Sou um Espectro no Teu quarto prosaico e existencial, aguardando pacientemente pelo momento em que Te farei estremecer quando Te trespassar.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Porta(dor) do Fogo


Talvez seja uma bênção
Ter saudades.
Talvez seja
Uma concessão imprecada
Como as asas de Ícaro.
Saber que há um Céu para voar
Saber que há um Sol para queimar.

Daí Prometeu
Gerar afinidade
Com as visitas da Grande Águia
Que devorava o seu fígado.
Porque apesar de cativo
Poderia avistar a liberdade no seu voo
E pelo menos uma parte de si
Voava.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Prestidigitação



«Como é que ele faz aquilo?»

Coloquei esta questão ao meu pai num dos primeiros espetáculos de magia de que me recordo. Quando a minha mente rodopiava na tentativa de assimilação da destreza ilusória, das pombas inesperadas, dos lenços em catadupa e de todos os clichés que não tinha idade suficiente para reconhecer. Como resposta, recebi um daqueles cumprimentos que despenteiam o cabelo de um pirralho, um sorriso e um piscar de olho. Sempre fui apreciador de uma resposta sem vocábulos, mas olhando em retrospetiva, apercebo-me que a minha questão não foi devidamente compreendida. Ele assumiu que me referia à metodologia dos truques, todavia, a efemeridade nunca foi um dos meus propósitos. Indagava-me sobre como é que ele fazia aquilo… sobre como é que ele enfrentava o palco, conjurava os seus estratagemas e projetava um ar de mistério e sobressalto, como se tudo também fosse uma surpresa para ele, desconhecendo inclusivamente o logro. Como é que ele dominava toda aquela atmosfera de assombro e se mantinha tão entretido como a sua assistência?

Como é que eu faço isto?
Como é que a fuzilo com palmadas até ficar encandeado pelo vermelho encarniçado da sua pele, sabendo que irei asfixiá-la com afeição desmedida no instante em que a sentir a esfiapar pela sua orla rendilhada? Como é que lhe desfiro uma saraivada de insultos lascivos, sabendo que lhe estenderei um guarda-chuva sempre que avistar como vacila quando lhe testo com algo menos genuíno? Como é que lhe crio uma atmosfera de violência deliciosamente transgressora, sabendo que não há perigo na formação de nebulosidade repleta de trovões do temor?
Não se trata apenas de técnica, nem de experimentalismos extáticos como ignorar por breves instantes a evidente glande clitoriana, concentrando atenções na tração do capuz clitorial, invocando o dilúvio com dois dedos enfileirados na invasão de uma formação em “u”, enquanto a palma da mão roçaga ensandecida.

Trata-se mesmo de Magia. Não propriamente de Feitiço. No meu entendimento, a astúcia das manhas perdia o seu lustre no momento em que o segredo da sua execução fosse revelado. Logo, qual a razão para o Artista porfiar, quando tinha conhecimento de cada um dos rolamentos da engrenagem? O enigma para o desempenho do mago tinha obviamente de ser solucionado de mangas arregaçadas e sem qualquer venda, pois era tudo uma questão de perspetiva. Eu não deveria estar atento ao Mágico, mas à sua plateia. Ele buscava as suas réplicas, pois apesar de entenderem como tudo não passava de uma artimanha efémera, a sensação de deslumbramento arrebatava-os do mundano. Ações demandam Reações. E tudo aquilo que desejo é viver em cada uma das dEla. Desde os seus suspiros terrenos, até às suas erupções transcendentais.

terça-feira, 18 de março de 2014

exCITAÇÕES


(...)

I’d like to destroy you a few times in bed.

(...)



Ernest Hemingway, in "The Snows of Kilimanjaro"

sexta-feira, 14 de março de 2014

Passeio das Virtudes


Por vezes, Ela sentia-se como numa daquelas agências governamentais de inúmeras películas norte-americanas, para as quais não possuía livre-trânsito. Um labirinto de corredores e escritórios atulhados até ao teto com gavetas de arquivo, individualmente trancadas com fechadura, de conteúdo desconhecido para os seus olhos. Ela sentia que buscava um pedaço de papel específico e todas as portas que encontrava abertas desembocavam num cubículo repleto de informação encriptada cuja cifra lhe era desconhecida. Isto significava que Ela era constantemente apanhada de surpresa em situações onde o seu autoconhecimento se revelava insuficiente e incompetente para a ajudar a sobrepujar obstáculos sem o auxílio da sorte… agradecendo sempre que algum estranho prestável ou algum amigo diligente lhe assegurasse que Ela não provocava muito dano sob si própria. No fundo, era uma intrusa da sua própria mente.

Tudo isto, no início, tornava-me ainda mais confuso. Era como se fluísse pela entrada do prédio dessa agência governamental, saudasse a rececionista com piropos elegantemente inofensivos e de forma decididamente contundente apanhasse o elevador para o último andar. Ela questionava-se sobre como seria possível que este recente estranho estivesse tão familiarizado com o esboço da planta da sua intimidade? Como é que ele detinha a senha que escancarava todas as portas do edifício, originando que copiosos papéis fossem cuspidos pelas bocas metálicas de todas as gavetas de arquivo, recreando uma cena do filme “Brazil”?

Descíamos a Rua Dr. Barbosa de Castro em direção a um espaço de eleição. A minha mão envolvia a sua cintura, de forma a fazê-la sentir-se controlada, mesmo que a minha atenção não estivesse deliberadamente focada nEla quando paramos no destino. Deixei-a lançar meio passo diante de mim e depois reclamei-a novamente com uma mão firme no seu braço. Vociferou um queixume surpreso, para espanto dos pedestres que passavam à ilharga. Aprestava-se para dizer algo, inquirindo-me sobre a súbita paragem, mas arrastei-A imediatamente para um recanto sossegado do Jardim, contrastando a sua placidez com o meu desassossego, nesse local que adormeceu entre a revolução industrial e digital, preservando a sensação de deliciosa decadência bucólica. Inicialmente beijei-A, sem lhe conceder oportunidade para me beijar com a sua réplica. As minhas mãos tornaram-se agressivas, predatórias, deambulando pelo seu corpo como uma matilha de coiotes cercando um antílope… como se buscasse algo… algum interruptor mágico que iluminasse algo nEla… sem Ela saber o quê. Ela limitava-se a estacar ali, encurralada, presa, passiva, submissa. Sussurrei algo ao seu ouvido, algo ininteligível, algo que não necessitava de ser apreendido. Eram apenas consoantes, pois as vogais haviam sido remetidas para o porão em virtude da sua característica demasiado melíflua e acolhedora. Até que se liquefez, fazendo da relva a sua piscina, esvaindo-se dEla própria sem deixar quaisquer resquícios além de um imenso vácuo para eu preencher. Sentiu-se vazia… e sentiu-me transbordando. Abrigou-se sob a minha sombra e deixou-se preencher por mim. Abriu todas as janelas e deixou-se invadir pela Luz da minha clarividência. Permitiu… rogou… aliás, exigiu que ocupasse todos os seus corredores e cada um dos seus compartimentos, até pulsar com o meu batimento cardíaco e sentir como é possível alicerçar uma Identidade resoluta.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Padrão do Descobrimento


A mensagem aguardava por mim quando desliguei a ignição e cessei o assalto sonoro que me havia acompanhado até casa. Senti-me emboscado, mas a boa disposição deu consistência à naturalidade do sorriso. Enviar uma sms tão cedo era um passo desataviado. Tamanho desassossego da sua parte conferia-me poder, mas talvez o propósito dEla fosse justamente esse.
Deixei as palavras assentarem. Muni-me de tempo para pensar e construir uma resposta apropriada. A sua mensagem revelava um pedido educado, apesar do conteúdo não ser assim tão polido. Ou pelo menos, aquilo que era inferido. Ela possuía uma aura de inocência que me acirrava, mas estava longe de ser ingénua. Reli a mensagem enquanto saía da garagem. A contagem cifrava-se em quatro quando inseri a chave na fechadura, à qual acrescentei mais duas enquanto selecionava a banda sonora que iria acompanhar as minhas deambulações pelas lides caseiras. Apenas me restava aquiescer ao seu pedido, concordar e aguardar. Todavia, existia um patético convencionalismo no canto da minha mente, no limiar da minha consciência, que me fazia sentir rapinador pelo aproveitamento de uma rapariga seis anos mais nova. Mas era Ela… a lei não estava a ser infringida e a rede de segurança moral teria de ser evidentemente suprimida. Então respondi. Disse-lhe que se realmente desejasse vir ter ao meu apartamento, presenciando-me pela segunda vez no mesmo dia, iria ter de existir um desfecho bem específico e óbvio. A sua resposta demorou sensivelmente trinta segundos e eu pude, claramente, escutar a sua voz enquanto lia as palavras. Uma simples afirmação. Sim, Ela sabia. Sim, Ela entendia. Sim, Ela ainda desejava vir. Sim, Ela faria tudo o que lhe fosse solicitado.

Vesti prontamente o casaco e fui aguardá-la à entrada do prédio. Avistei-A ligeiramente inebriada, quando se livrou dos três degraus que nos separavam, vacilando nos seus saltos antes de me abraçar. O descaramento havia sumido ao clamar silenciosamente por alguma espécie de ajuda para algo tão simples como caminhar. Ali, naquele instante, enamorei-me. A genuinidade e a candura sempre me desarmaram. Firmei-A pela cintura e deixei que a noite nos vestisse enquanto A encaminhava para o meu lar. Trocamos um beijo por um segundo. Foi perfeitamente visível como Ela pretendia prolongar aquele beijo por mais um pouco, adiando as eminências numa vã tentativa para se salvar de si própria. Não lhe concedi esse ensejo, pois não só desejava preservar o seu ímpeto… como desejava erguer-lhe um Monumento. No final de outro pequeno lanço de escadas que nos aproximava do elevador voltou a tropeçar, desculpando-se a ninguém em particular. Voltei a sentir aquela atração repleta de veemência. Beijei-A ao entrar no elevador. Deixei que as minhas mãos encontrassem o seu próprio rumo e apoderei-me de um bom punhado de nádegas. Ela soluçou, numa expressão delatora que se encontrava a meio caminho entre o embaraço e a felicidade, mordendo o lábio inferior como resposta. Chegados à minha porta, pausei.

«Última oportunidade…»
«Está tudo bem.»

Abanei a cabeça em desaprovação.

«Não! Quero escutar uma afirmação perentória daquilo que desejas. Quero que saibas o que Te aguarda quando atravessarmos esta porta.»
«Eu sei. Eu desejo-o.»

Ela mentia. Pelo menos na primeira parte da resposta. Ela não tinha noção do que eu lhe faria. Mas essa era a principal razão pela qual tremia e tropeçava. Não o álcool partilhado horas antes. Essa era a razão pela qual se encontrava ali, comigo, abraçando o desconhecido, desbravando algo novo. Sorri e beijei a ponta do seu nariz. Ao abrir a porta, escutava-se a voz da PJ Harvey como anfitriã no meio da escuridão, seduzindo-nos para o interior daquele refúgio como o canto de uma sereia. Tomei a sua mão e olhei nos seus olhos:

«Vamos lá averiguar quais as formas que adquires na escuridão...»

quarta-feira, 12 de março de 2014

Eureka


Eu sou a Água
Tu sentas-Te acima de mim
E eu beijo os Teus pés.

Eu sou a Água
Tu baixas os lábios ao meu encontro
E eu ingresso em Ti.

Eu sou a Água
Tu vertes-me na Tua pele
E eu expio-Te da canícula.

Eu sou a Água
Tu submerges em mim
E o Amor transborda pelas margens.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Aliança


Não escrevo para Te armar contra Demónios.
Escrevo para Te assegurar como serão sempre os Teus melhores amigos.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Aura da Aurora


A forma como eu pairava sob a porta do quarto assemelhava-me a um gangster dos filmes da década de 50. Contudo, a iluminação não era consonante. Era manhã e os filmes de então aparentavam olvidar as manhãs, pois tudo girava em torno de negócios de meia-noite e ressacas de final de tarde. Ver-Te delineada pela alvorada dissipa qualquer ressaca e orvalha-me de paixão. Naquele instante, espremeria um deserto para dentro de uma ampulheta.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Sexo de Perdição


Prismas… há prazer e há dor… há ternura e há crueldade… faces graciosas de uma moeda conceptual… transformação… o meu próprio momento Jekyll/Hyde…

terça-feira, 4 de março de 2014

exCITAÇÕES







(…)

I meet you. I remember you. Who are you? You’re destroying me. You’re good for me. How could I know this city was tailor-made for love? How could I know you fit my body like a glove? I like you. How unlikely. I like you. How slow all of a sudden. How sweet. You cannot know. You’re destroying me. You’re good for me. You’re destroying me. You’re good for me. I have time. Please, devour me. Deform me to the point of ugliness. Why not you? Why not you in this city and in this night, so like other cities and other nights you can hardly tell the difference? I beg of you!

(…)


“Hiroshima Mon Amour”, de Alain Resnais