terça-feira, 29 de julho de 2014

O Sumo da Súmula


Quero roubar todo o ar que respiras. Torná-lo refém até despir todas as Tuas emoções, como tantas outras roupas que tombam pelo chão… envergonhadas, gastas e escusadas. Quero ver-Te sob os Teus alicerces, dissecar-Te para além das inseguranças e neuroses. Quero saber qual a cor que o desespero adquire em Ti.

Esta não será a descrição do Teu real desejo? O tal que cortejas… o tal pelo qual pestanejas… e que Te cobre pelas noites, quando esses dedos se ocultam entre as Tuas coxas na tentativa de germinar algo? Pois então, desmoronemos o teatro. Dispensemos a audiência. Expulsemos a orquestra. Desmantelemos o palco até restarmos apenas os dois e o chão de madeira como companhia. Quero ouvir-Te suplicar… sem gemidos ou suspiros entrecortados. Escutemos a Verdade! Dizes querer provar o néctar do medo, mas não creio que saibas realmente ao que aspiras. Escorre vontade na Tua dicção, como se cogitasses um arroubo de magia assente em entretenimento. Dizes querer ser subjugada… prostrada à minha mercê… mas não creio que tenhas consciência do impacto da realidade sobre a Tua fantasia.

Quero Metamorfose. Manifestada através Ti. Quero que saias diferente da forma com que Te apresentaste à chegada. Quero que leves algo conTigo. Quero que aprendas e apreendas… mas ainda não delineei o que desejo ensinar e entregar. Tu vês as ondas, mas eu atento naquilo que as forma… nas ideias que compõem uma na outra até se tornarem suficientemente densas para me engolires por inteiro… para Te revirar de dentro para fora… epitomando-Te a uma poça molhada no chão.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Rabisco


«Pictórico», nunca foi uma palavra que cogitei para definir algo sobre mim. A Criatividade sempre se manifestou de outras formas… fosse através da eleição de uma determinada especiaria para elevar um prato acima das suas expectativas culinárias; ou fosse através da triagem de certas palavras numa ligação telefónica, para lhe arrancar uma gargalhada genuína apesar de apartados por um continente e dois oceanos. Até quando pegava em pincéis na aula de desenho, detinha-me mais fascinado pela trapalhada de cores pollockiescas que havia deixado nas mãos, do que propriamente pelo esboço que a tela ostentava.

Contudo, ali especado de mão a latejar… observando-a empinada e exposta… sentia-me envaidecido pela beleza daquelas pinceladas rubras. Ela respirava profundamente, mordia o lábio, cerrava os olhos e repetia o ciclo… retomando-o de todas as vezes com o subtil alçar daquele rabo. Eu… limitava-me a roçar os meus lábios um no outro, deslizando a língua entre os mesmos, considerando o quadro da situação. Deslizava a ponta dos meus dedos por aqueles vales e riachos. Os vergões eram violáceos, a pele pintalgada ganhava relevos encarniçados. Havia inclusivamente uma tonalidade dourada através do rosado e a iridescência distraía-me. Era inevitável admirar o meu trabalho. Admirá-La! Era inevitável sentir-me capaz de ombrear com os colossos… Picasso, e o seu desrespeito pelo formalismo… Dalí, e o seu elegante distanciamento da normalidade… Van Gogh e a sua graciosa loucura. Eles tinham telas… eu tenho a sua Pele!

terça-feira, 22 de julho de 2014

Voar pelo Chão


As cores colidem na tela ebúrnea, como as estrelas no pano de fundo cosmológico. Um fogo-de-artifício de matrizes que se fundem numa conflagração geométrica. Eu perco-me nesse caleidoscópio como uma criança prostrada em adorada contemplação do desconhecido. O batimento cardíaco acelera sempre que pressiono os meus olhos contra a borracha ligeiramente fatigada dos meus binóculos. Foco a Beleza. Perlustro as suas formas. Mas essencialmente, pelejo pela matéria invisível, estreito a visão renunciando à periferia em prol da focagem. Eu sou telescópico. Cada partícula da minha essência é uma sinédoque involuntária, rendida à perdição esmagadora do sentido de escala e perspetiva. Busco provar como há partes que representam o Todo. Poderia ficar horas prostrado naquele chão, contemplando a cavalgada de cores que convergem com incerteza matemática. Todavia, a certa altura, até eu necessito de ser salvo… Até eu ambiciono escutar o meu nome, invocado através do espectro da caverna.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Raio X


Raramente me sinto tão desarmado como nos momentos em que Te despes. Cada peça resvala das linhas do Teu corpo com a urgência de uma avalanche… e limito-me a olhar. Não se trata propriamente de impotência, mas de estase. Perlongo em assimilação e a minha mente formula numa janela de tempo que não me enquadra além da função de recetáculo. Olho, observo, disseco, contemplo. Sem ação!

Por muito paradoxal que possa soar, dominar não se resume a empossar. Isso seria apenas o brinquedo fastidioso de um ditador frívolo. Dominar é controlar a fluidez do Poder, direcioná-lo, permitir que respire como um bom vinho. É encarnar Tifão, estacado no centro de uma tempestade a controlar os relâmpagos. E sorrir! Sorrir ensandecido quando vislumbro a forma como essa pele absorve a luz. Pois apesar de me encontrar atado, reivindicarei cada parcela do Poder que repousa nessas mãos, quando sentires o peso invocatório da rendição, sob o jugo da dissimulada inação.