domingo, 31 de agosto de 2014

Lusco-Fusco


Estás longe. És um Sol no meu Horizonte.
Há gente que peregrina munida de cifrões para selvas onde vão prestar homenagem a um templo decadente, tirar selfies com estátuas de deuses e monstros barrigudos inventados por um qualquer selvagem leproso. Será que buscam Beleza e Génio? É essa a sua noção de Sublime, enquanto secam os pés de um mar com cheiro a tequila, cachaça ou rum?

És a minha Religião! Por quem me ajoelho na oração de entrelinhas que rezam luzes crepusculares do passado de uma Costa Atlântica. Até Te aperceberes, mesmo a milhas de distância, onde começa o Deus e termina o Peregrino. Até Te aperceberes que apesar de ter demorado mais de sete dias, criei este Mundo para Ti. Até Te aperceberes, mesmo com esses olhos arredados destas linhas, que faço da Transcendência um Tempo Verbal e desse corpo o meu Templo Carnal.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Epítome de uma Distância


Não pares!
Perde-Te no momento, mesmo quando o administras… e ministras. Não paralises. Não Te detenhas no feitiço dos suspiros que Ela desenha no ar. Corta-lhe o ar. Mão na sua garganta. Espreme! Trata de obstruir essa traqueia. Aperta. Não penses. Pausa. Inspira. Continua. Não pares! A venda agita-se. Os olhos dEla mexem-se mesmo sem conseguirem ver. Aprecia-o. Aprecia-A. Estima-A. Fotografa com os Teus olhos o instante em que Ela abre os lábios. Agora mexe-te! Desce a mão. Afasta-lhe as coxas. Invade-A. Clama-A. Quando comprimir as coxas como uma ostra, emprega o ensejo como algo proveitoso. É cooperação. Investe os dedos. Tecla-lhe gemidos. Contempla como se contorce. Silencia-A… com a boca. Numa colisão trapalhona de dentes. Ri, mas garante que o riso expira nesse beijo. Olhos bem despertos. Os dEla esvaecidos. Ela agarra-se à tua boca como se fosse a última coisa do seu mundo… o derradeiro elo tangível. És um deus para Ela. O destino dEla pertence-Te. Pequena Morte? Grande Morte? Corta-lhe novamente o ar. Afunda-lhe o polegar na traqueia. Atenta no seu rosto. Espera... Espera... Espera... Agora liberta-A. Ela engasga-se. Beija-A. Que o ar lhe ateste os pulmões. O teu Ar. Ela tosse por um breve instante. Afasta-te um pouco. Mas não lhe deixes tomar fôlego. Atira-A para o chão. Para o teu chão. Ela tropeça. A forma como o seu ombro bate no chão sacode-te um pouco, mas tens noção que Ela prezará a equimose. Ela não pensa em dor neste momento. Ela não pensa em todas as formas que empregaste para lhe contundir… para lhe deixar o fardo de deliciosos brasões que terá de carregar. Ela não pensa. Tu não pensas. Agora não há lugar para hesitações. Nem reflexões. Perde a tua mão num punhado dos seus cabelos. Sente o emaranhado em cada nó dos teus dedos. Puxa-a e hospeda os teus lábios no seu ouvido…

«Quero rasgar a Tua carne e fazer do Teu âmago o meu Lar. Quero foder-Te até perder a visão e ficar em pé de igualdade com essa venda. Quero fazer dos Teus suspiros a candeia que alumiará o meu Caminho até Casa.»

Sentirás as palavras voando através dos dentes e por uma fração de tempo, não te reconhecerás.
Não pares!

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Medo


O Medo isola-nos uns dos outros. Torna-nos solitários. Reivindica as entranhas e retorce-nos, até que todo o conforto da esperança nos abandone no centro de uma pilha de pensamentos estilhaçados e fragmentos de uma essência que tentamos recompor. A escuridão toma conta da consciência, independentemente da luminosidade das redondezas.

Todavia, quando Te enjaulo no meu tipo de Medo, aquele que difundo pela Tua mente como uma intravenosa, alcançamos um patamar singular. É insulamento sem isolamento. Uma janela de oportunidade para fruição, para saudável rebeldia sem malograda perdição. Serás como Teseu, com a Tua mão numa das pontas do fio e com minha mão na outra ponta… a um esticão de distância. Claro que há Teatro nas imediações. Contudo, atravessar o meu derradeiro umbral deixar-Te-á despida de ilusões. Excitar-Te-ás… Assustar-Te-ás… Espernearás… Sentirás questões estocarem pela Tua carne até ao recôndito da Tua mente, receando que o momento subsequente se encontre impregnado em desastre. No entanto, durante a cena, a distância será infinitesimal. Há um falso comprimento de braços, que tanto nos aproxima como nos afasta. Quid pro quo. Erupções guturais serão disparadas com a espontaneidade de balas. Outorgando o casual para enfatizar o formal.

Treme… Estremece… mas fica ciente do meu zelo. Estou aqui! Estarei sempre aqui! A uma sobrancelha arqueada, a um soluço de inquietação ou a uma palavra de segurança… de distância.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Cativo


A maioria defende que a Conversa é o alicerce de um bom relacionamento. Como ela divaga, rumina e expande num interminável raio de tópicos que nos acrescenta. Argumentam que a pessoa que escolhemos para partilhar uma existência deverá ter competência para partilhar uma conversação enquanto elemento edificador de convivência.

Respeitosamente, discordo. Não em absoluto… mas numa parte fundamental. Alguém que mereça partilhar uma existência comigo não precisa de fazer do palratório o seu estandarte. Qualquer um preenche o ambiente com ruído, troando discursos energéticos com algaraviada petulante. A Mulher com a qual desejo partilhar os meus batimentos cardíacos terá de ser idónea na ocupação do Silêncio. Terá de reconhecer o nicho do Silêncio. A mútua contemplação do Nada que representa um Tudo. A asserção da transcendência de uma troca de olhares… com olhos fechados. Como se um dos sentidos se perdesse e ao mesmo tempo, todos se amplificassem. Esteja no Berço da Nação ou no Berço da minha Cama, para mim, Tudo se resume a isto: descerrar portais sem me baterem à porta com palavras e permitir que finalmente Alguém penetre na Real privacidade autónoma do meu Ser.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Ancorada


Toda aquela situação propiciava-lhe uma sensação de leveza… o colchão debaixo do seu corpo parecia ter sido substituído por mil e uma mãos… cada uma elevando-a para bem longe do chão. Ela sentia-se na iminência de levitar a qualquer instante… como se necessitasse de cordas… amarras… ou apenas da minha atenção… para ser ancorada na Epopeia narrada pelos vincos daqueles lençóis.

Word on the Street


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O Bandido Solitário


A diferença entre a violência física e a violência verbal não se confina ao método de transmissão que percorre a distância entre uma pessoa e outra. Manifesta-se pelo Impacto!
O corpo dEla esmolava por algo físico… pelo emprego da sua pele como absorção do Impacto… pela epifania de qualquer espécie de verdade que lhe ministrasse qualquer remédio transitório. O álcool amplificava as vontades e magnetizava o contacto. Até que a memória muscular assomou. Sensações arquivadas escoaram pela mente e pelos membros. Embrulharam-se nas fibras e terminações nervosas, aguardando por um pretexto para repetir bailados passados. As minhas mãos conheciam-na e Ela conhecia as minhas mãos. Dedilhavam-lhe suspiros que almejava… e alvejava, enfiando-lhe dois dedos na boca… e afastando o seu rosto para o lado, a fim de lhe consumir o pescoço. A marcha era inexorável. Sabia como fazê-la espernear e Ela sabia como invocar a ferocidade das minhas estocadas. Naquela arena, a coletânea de reminiscências foi potente… perigosa. A memória sempre possuirá mecanismos singulares para polir o passado, limando arestas de tal forma que nos distraem da presença de curvas sinuosas enquanto resvalos iminentes. O clímax revelou-se um colapso, implodindo o castelo de fantasia que se havia formado com os nossos ossos. A ebriedade passou testemunho à sobriedade. Despojados do esplendor da luxúria, do álcool e do toque, permitimos que a escuridão nos providenciasse o derradeiro esconderijo de nós próprios.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Atenção à Tensão da Tesão


Numa viagem de carro, há e haverá sempre aquele género de imberbes e aquela estirpe de famélicos broncos que adora deslizar uma mão sob as cuequinhas da passageira, enquanto a outra mão permanece no volante. Uma Mulher sedutoramente sagaz será sempre aquela que bloqueia a investida… não por qualquer assomo de frigidez… mas porque se apercebe que o ato de ser tocada jamais irá requerer total atenção por parte do papalvo. Afinal de contas, quem disse que a voragem da excitação dizima qualquer estampa de requinte?