quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Atalho


Quando tinha 9 anos, deslocava-me de bicicleta para a escola. Demorava sensivelmente 20 minutos a percorrer a distância… isto, na viagem de regresso, quando pedalava com maior intensidade. Chegava a casa cansado e suado, colapsando imediatamente no sofá, sem me preocupar com Nintendo’s, com a abertura do segundo canal televisivo, com leituras ou estudos. Até que certo dia, um amigo me indicou um atalho. Cortava a minha rota pela metade, anulava o esforço previamente despendido e preservava intacto o meu alento para sugar o tutano do meu tempo livre. Todavia, o usufruto não foi gerado pelo tempo economizado, nem pela melhoria na higiene que a sudação colocava em causa. À medida que o novo trajeto se tornava uma norma, enquanto criança fascinada pela magia, senti-me a flutuar… desbravando trilhos secretos subdimensionais … entrelaçando novos filamentos no tecido espaciotemporal. Sentia-me transgressor de algum mistério secular e durante um bom período de tempo vivi cativado pela constante sensação de descoberta.

A primeira vez que fodi, senti a mesma espécie de arrepio existencial proporcionado pelo descobrimento. Algo que esvaeceu na segunda e terceira experiências. Não significa que tenha perdido o prazer, nem que as fodas subsequentes tenham sido fastidiosas. Contudo, a tal sensação de descoberta havia resvalado algures, juntamente com o deslumbramento. As engrenagens da relação sexual haviam ficado rapidamente expostas e a magia havia desperdiçado parte do seu encanto. Nada evidenciava distinção na essência dEla. Era irrepreensivelmente Bela, como algumas mais que pululam pelo planeta, e apesar de me desarmar sorrisos com uma facilidade surpreendente (até para mim), não conseguia designar uma característica que a diferenciasse das demais. Mesmo assim, o fascínio que ela gerava em mim era magnético. Sondá-la, assimilar as suas endentações tornou-se o meu desígnio. A minha mente começou a atuar de forma quase científica, mas quando me encontrava na iminência de urdir uma teoria, Ela subvertia tudo, revelando algo novo, obliterando semanas de pesquisa afincada. A minha obsessão era desconcertante. Observava-a… escrutinava o seu rosto com um foco quase psicótico enquanto os meus dedos sondavam o seu corpo. Procurava cartografar as suas reações às minhas ações e Ela divertia-se em consonância com as explorações. À medida que o Tempo avançava, o entusiasmo enraizava. Ao invés da amarga frustração, era tomado de assalto pela doce alucinação. A sensação de descoberta vestia-me pelos dias e despia-me pelas noites. Nada quebrava o feitiço daquelas horas. Nenhum segundo gerava um bocejo. E a minha ânsia por deslindar cada uma das suas subtilezas, jogava com o âmago do seu desejo. Caíamos de mãos dadas pela Toca do Coelho. Havíamos encontrado um atalho, e inexplicavelmente, não havia destino. Que mais poderia almejar um genuíno Caminhante?

domingo, 21 de setembro de 2014

Satiríase


Promíscuo intelectual
Devorador… de Conhecimento
Personagem quase literária
Satiríaco
Vasculhador de Prateleiras
Como um Tornado
Sugando... Conhecimento
Do Âmago da Alma Almejada.
O Amor
Pode ser inarticulado
Mas sagaz
Pode ser iletrado
Mas loquaz.
A Libido
Essa
É matéria de Bibliotecas
Narrada entre Lábios
Sussurrados
Melados
E exclamados.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Comi(nuí)da


Estas mãos irão fazer-Te fugir. Representam perigo. O diabo esconde-se sob as minhas unhas. Os dedos esquadrinham a pele. Salteiam o Teu corpo como Vikings, reivindicando o que pretendem e destruindo tudo o resto. Sentir-Te-ás dizimada.

Estas mãos irão fazer-Te ficar. Representam segurança. A eternidade esconde-se sob as minhas unhas. Os dedos socorrem-se da Tua pele. Recorrem ao Teu corpo como se de um bote salva-vidas se tratasse. Sentir-Te-ás deificada.

Haverão contradições em cada movimento. Os lábios serão simultaneamente possessivos e libertadores. As estocadas de tesão pela tua boca adentro serão simultaneamente aterradoras e eletrizantes. Emanarás fúria pela minha presunção e devoção pela minha deliberação. Não haverá uma refrega entre o Teu cérebro e o Teu corpo. Nada disso! A Batalha será disputada entre cada átomo da Tua essência, numa plataforma molecular. Sentir-Te-ás fragmentada. Todavia, jamais Te subestimarei. Não és uma boneca de porcelana que corre o risco de ser despedaçada ao mínimo sopro. Não necessitas constantemente de dedos a cumprir a função de penas, nas múltiplas carícias que granjeias. Eu agarro, aperto, espremo e esmago. Eu cravo, arranho, sulco e trespasso. Dedos e palmas, punhos e dentes. Pois há que roer o osso e provar o tutano, para honrar a Carne que nos proporciona um verdadeiro Festim.