sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O Lobo em Nós



Sim, já deduzi
Que usas batom
Para que atente
Enquanto embrulhas
Essa deliciosa boca carmesim
Na borda de uma chávena de café
Com o intuito de me distrair
Da Tua inteligência e do Teu poder;
Uma ameaça.

Mas será que averiguaste
Como arqueio as sobrancelhas
Com o intuito
De constatares o meu cepticismo inabalável
Negligenciando
O meu olhar maléfico
Quando usas esses truques de rotina ameninada?

Talvez uses saltos
Altos e finos
Para que prenda a minha atenção
No movimento das Tuas ancas
E depreenda que a troada
Desses passos
Seja um alerta sobre
Possíveis tentativas de dominação…
Pois caminhas
Sobre facas afiadas.

Talvez
Quando sorria das Tuas piadas
Esteja arreganhando
As minhas presas
Aguardando
Pacientemente
Pelo dia
Em que as afundo
No Teu pescoço.

Não Te considero
Uma porcelana delicada
Pois envergas essas vestes
Como uma armadura
Para me manter
A uma certa distância
Preservando-Te
Contra o estilhaçar
Desse frágil autodomínio.

Não és uma pétala
Nem estás a murchar
Portanto
Olho-Te de relance
E jamais como desdém
Para que o fogo nos meus olhos
Não inflame as Tuas palmas suadas
E demula os teus ossos
Em cinzas.

Não és uma menina dócil
És fúria, és Paixão, és uma Fénix,
E eu
Sou uma floresta de lobisomens
Que irá deglutir o Teu coração
Para que da próxima vez
Que pintares esses lábios escarlates
Consiga provar o travo a cobre
Do Teu último fôlego.

Everybody's Got a Thing


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O Vapor da Memória



Não me recordava de ter esquecido como Ela se sentava, ali, nua até à cintura… com uma perna pendurada fora do batel… com aquele lago beijando-A pelo tornozelo. A outra perna, bem mais carente, embrulhava-se num dos braços… enquanto lia, virando as páginas com destreza idêntica àquela que os meus dedos haviam empregado, para a folhear durante aquela manhã. Num momento estava ali, no outro havia tombado pelos céus… desde a ponta dos meus dedos… e era tão Bela a esvoaçar que apesar de distantes, tal como Vénus e a Lua Crescente, apesar de apartados partilhávamos o mesmo Céu.

Durante quanto tempo perdurou imutável a memória daquele dia? A recordação da sua mama esquerda espalmada contra o seu joelho… e da sua intumescida mama direita, suspensa como uma Lua Cheia sobre o livro? Será liquida, a memória? Poderá evaporar, se fervilhar diariamente pelos recessos da mente?

Sem Meias Medidas


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Sei-o



No final
Apesar
Do beijo
Ter sido
Tão curto
Como a asa
De um tentilhão
Registei
Como o aninhaste
Naquele ponto
Da Tua mama esquerda
Talvez temerosa
Que pudesse
Perecer
Sem um batimento cardíaco.

Sem Meias Medidas



A Minha Kryptonite...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A Insustentável Leveza da Sede



O Vampiro foi popularizado e no processo de vulgarização perdeu as presas… obliteraram-lhe cada centímetro funcional dos seus caninos. Ele rosnava sem rosnar, numa postura requintada que descrevia uma tangente sobre a ameaça, sobre o intento sinistro. Por muito que o Vampiro fosse definido pela avidez da sua sede e pelo silvo da luz solar, não eram essas características que o apartavam do cortejo de monstruosidades que marchavam pelos capítulos sombrios da literatura gótica… não para Ela. Era a excisão da sua Humanidade, contrastante com a necessidade impenitente da mesma. Era definido pela fome, mas depois esbofeteavam-lhe com a adenda da imortalidade. Não tinha escolha na matéria… assim como Ela. Ela não conseguia controlar os impulsos, as tendências, as vocações, os nervos e as ansiedades… e cada molécula do seu ser rugia por isto… por algo que muita gente observa, mas evita tentar compreender. Ela era perversa, e essa devassidão alienava-a da faixa humana.

De pé, acima dEla, esbofeteei-A. Ela ainda o conseguia sentir... o sangue na sua bochecha... e saboreou cada segundo. Sabia a Vida, aquele ardor esvaecido, um pedaço de mim concedido e concebido para Ela… e ninguém exterior àquele quarto tê-lo-ia entendido. Veriam a ação e tratariam de desprezar na melhor das hipóteses, ou julgar na pior das hipóteses. Ali, todo o resquício de intimidade foi sugado… ingurgitaram-se… e nenhum dos dois sobrou… nem para o observador casual. Era a tristeza que ela mais lamentava ter sumido do Vampiro hodierno. Tornou-se fixe, e dessa forma perdeu a Melancolia… de serem eternamente parte da Humanidade e de estarem eternamente aparte da Humanidade.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Unha e Carne



Ecoas
Pelo desfiladeiro
Do meu
Pensamento
Até que
O meu
Sangue
Se transforma
Num Falcão
Que Te
Persegue
Por todo o lado
Com as minhas mãos
Com as minhas garras
Abrindo e fechando
Açoradas
Pela Tua carne.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Orgasmo



Escuto o murmúrio
De um silêncio apreensivo
Que se encontra no adro
De um Grito.
São átimos elétricos
Onde sorris com o olhar
Numa proximidade
Que me enleva
E enleia
Num cobertor de átomos
Depurados.
Quem és Tu
Alma migratória
Burilada
Nas margens lodosas
Dos meus devaneios?

sábado, 17 de janeiro de 2015

Corpos Celestes



Entretinha-me espreguiçando a minha mão na sua anca. Ela, por seu turno, jazia o olhar em papéis, em datas… Amanhã, este fim-de-semana, a próxima semana, a próxima viagem em Março. Desassossegado, decidi fender o silêncio e proclamei:

«Em Março, a Dawn chega a Ceres.»
«O quê?!»
«Dawn, é a sonda que a NASA enviou para a cintura de asteroides entre Marte e Júpiter, para estudar o planeta anão chamado Ceres. Move-se com propulsão a iões para atravessar o espaço, de modo muito mais eficiente que a propulsão química.»

Silêncio.
Olhares trocados.
A minha mão imersa em irrequietude.
Contudo, o seu olhar voltou a compenetrar-se na tirania da agenda.

«Onde queres ir este verão?»

Aproximei-me ainda mais dEla, aninhei a sua mama na palma da minha mão e retorqui:

«A meio de Julho, estima-se que a New Horizons atinja o seu ponto mais próximo de Plutão.»

Contornei-A igualmente com o meu corpo e mordisquei-lhe um ombro.

«Não me digas que o Teu conceito de sedução é idêntico ao de Stephen Hawking.»

«Não preciso de Te seduzir.» Refutei, mordendo-A desta vez, com mais força, no outro ombro. «Já Te possuo.» Nova ferradela. «Talvez seja algo científico. Talvez sejas neste momento, a prova irrefutável do aquecimento global.» Baixei lentamente a minha mão, até chegar à órbita do tecido das suas cuequinhas. «Serás ou não serás?… Enquanto sondamos a resposta, lembra-Te sempre disto: quando olhas para o céu, na realidade encaras de frente o infinito abismo cósmico, tendo apenas a gravidade como amparo que Te firma na superfície desta Terra. Eu sou e serei a Tua gravidade.»

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Petrichor



(Do grego petros, pedra + ichor, fluido eterno, sangue dos deuses)
É o nome do aroma que a chuva provoca ao cair em solo seco.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Vir para Ver



Independentemente
Da velocidade da Luz
Foi a Escuridão
Que chegou primeiro.
Independentemente
Do quão revelador
É o Dia
Vem
Ter comigo à Noite
E ver-Te-ás
Nitidamente
Ver-Te-ás
Finalmente.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Égide



Tento Ser
Um pequeno deus.
Não quero explodir
Nem implodir
Uma estrela.
Não quero rodopiar planetas
Na ponta dos meus dedos.
Não quero tricotar átomos
Nem manifestar-me
Através de um profeta
Ao qual se ajoelham
E do qual deduzem planos.

Quero apenas
Dois dedos de deus.
Apenas o suficiente
Que me escore
Com divindade suficiente
Para Te atordoar
Ao meu lado.
Apenas o suficiente
Para não temeres
Mil e uma mortes
Sob a minha Égide.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Linguística



Claro que não me importaria
De redigir
Ou declamar
Uma peça de Ficção
Ou Poesia
Na Tua pele.
Algo sobre a sobrevivência
Ao frio…
Algo encharcado em lava
Inferindo uma nota escarlate…
Algo com um posfácio
Que expõe
O sumo dos capítulos iniciais…
Algo que Te acirra
E leva a desejar
Que volte a folhear
E Te releia
Tudo
Lentamente
Devotadamente
Languidamente.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Shangri-la



Na primeira vez que Te apelidei de Divina, riste-Te tanto, arqueando ironicamente a coluna de tal forma que os Teus olhos ficaram voltados para os céus. Na segunda vez que Te apelidei de Divina, gemias excertos do evangelho entre dentes, em torno dos meus dedos. Sempre Te quis surpreender ao surpreender-Te a Ti própria. Porque és um Anjo que oculta o seu nimbo atrás das costas e nada vivi de mais obsceno para além da forma como Te depenei as asas. Fodo como um serafim e nenhuma passagem das escrituras Te preparou para as minhas mãos. Mãos que cartografaram uma comunhão no berço das Tuas ancas. Mãos que entoaram hinos para o louvor das Tuas sinuosidades. Desta forma, recebi a Tua confissão sobre o tempo que aguardaste por um foco de veneração. Desta forma, capitalizei-Te de joelhos. E quando Te afundaste no chão, gemendo que não Te conseguirias refrear, questionei-me se os restantes anjos tombariam de forma tão doce e graciosa. Partilhei preces entre as Tuas coxas e rejubilei quando enrubesceste a cor da Tua língua devassa. Arruinei-Te e não só me agradeceste… como me suplicaste. Não existe memória de perdição tão aconchegante, pois encaixei nos Teus recantos como se houvesses sido criada para mim. No cimo deste corpo, serás sempre uma deusa ancestral, cuja humildade eternamente recordarei quando me brindaste com a Tua pele. E assim Te tomei.
Quem diria que o sacrifício seria algo tão profano?
Inevitavelmente, quando Te apercebeste que segurava a Tua garganta com uma mão e o Teu coração com a outra, esqueceste-Te de todas as palavras de todas as línguas… exceto o meu nome.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Noites de Lua Cheia em 2015



5 de Janeiro
3 de Fevereiro
5 de Março
4 de Abril
4 de Maio
2 de Junho
2 de Julho
31 de Julho
29 de Agosto
28 de Setembro
27 de Outubro
25 de Novembro
25 de Dezembro

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Janeiro


És Janeiro.
E Janeiro
Deita-se cedo
Para se levantar tarde.
Contudo,
Não dormes...
Velas pelo Sol
E quando chego à cama
Queimas como o verão
Como o verão
No meu colo.