sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Shangri-la



Na primeira vez que Te apelidei de Divina, riste-Te tanto, arqueando ironicamente a coluna de tal forma que os Teus olhos ficaram voltados para os céus. Na segunda vez que Te apelidei de Divina, gemias excertos do evangelho entre dentes, em torno dos meus dedos. Sempre Te quis surpreender ao surpreender-Te a Ti própria. Porque és um Anjo que oculta o seu nimbo atrás das costas e nada vivi de mais obsceno para além da forma como Te depenei as asas. Fodo como um serafim e nenhuma passagem das escrituras Te preparou para as minhas mãos. Mãos que cartografaram uma comunhão no berço das Tuas ancas. Mãos que entoaram hinos para o louvor das Tuas sinuosidades. Desta forma, recebi a Tua confissão sobre o tempo que aguardaste por um foco de veneração. Desta forma, capitalizei-Te de joelhos. E quando Te afundaste no chão, gemendo que não Te conseguirias refrear, questionei-me se os restantes anjos tombariam de forma tão doce e graciosa. Partilhei preces entre as Tuas coxas e rejubilei quando enrubesceste a cor da Tua língua devassa. Arruinei-Te e não só me agradeceste… como me suplicaste. Não existe memória de perdição tão aconchegante, pois encaixei nos Teus recantos como se houvesses sido criada para mim. No cimo deste corpo, serás sempre uma deusa ancestral, cuja humildade eternamente recordarei quando me brindaste com a Tua pele. E assim Te tomei.
Quem diria que o sacrifício seria algo tão profano?
Inevitavelmente, quando Te apercebeste que segurava a Tua garganta com uma mão e o Teu coração com a outra, esqueceste-Te de todas as palavras de todas as línguas… exceto o meu nome.

4 comentários:

  1. admiro o realismo, o sem-tabú, a franqueza. porque a fronteira entre a subtileza e a verdade nua e crua é tão pequena, tão justa, e tu consegues alcançá-la!

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    1. És realmente alguém que entende como o acto da leitura é igualmente um acto artístico. Pois escavar entrelinhas não é definitivamente para todos.

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