quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Chanfro



Desde que hajam marcas, existem provas.
Ela pode deslizar os dedos pelo plissado da pele, reconhecer os sulcos e os vincos, a forma como foi embrulhada por algemas, cordas e grilhões.
Embrulhada, é definitivamente a palavra mais adequada.
Mesmo que uma hora do tempo (esse tirano) passe sobre o momento, as marcas permanecerão. Tudo aconteceu. Não é apenas o resquício de uma memória quebradiça, intercalada com fantasia e embelezamento de qualquer patética, rebuscada, desesperada e simplória Sombra de Grey. Ela não precisa de idolatrar nem demonizar o momento. Basta um suspiro. A assunção da realidade. Certamente exausta, mas embrulhada pela Verdade que paira no quarto, como um Perfume. Por muito que deseje tocar nos padrões que estampei na sua pele, não se atreverá a roçar os seus dedos, com receio de os apagar. A retrospetiva é um exercício deveras engraçado… pela forma como alumia as razões que nos desproviam antes de um determinado momento no passado. A Emoção, essa será sempre o derradeiro Vestígio do Presente… sem qualquer tipo de Sombra… de dúvida!

Sem Meias Medidas


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Dentro



Não saberás
Nem lograrás saber
Aquilo que desejo em Ti.
Tudo se encontrará enleado
Revolto e esperneado
Dentro de Ti.

Portanto
E por Tanto,
Não me questiones.
Isto é entre mim
E a Tua pele,
Entre mim
E o labirinto
Dentro de Ti.

Escolherei um caminho
Tomarei passos…
Morder-Te-ei
Sovar-Te-ei
Amarrar-Te-ei
Beijar-Te-ei…
De alguma forma
Acharei um centro
Acharei um fim
Acharei um início
Dentro de Ti.

Sem Meias Medidas


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Sem Meias Medidas


Por Ela Adentro



Eu gosto dEla assim. De rabo empinado e com uma das faces espremida contra os lençóis, forçada a ter de dividir a sua visão e recorrendo a punhados da cama para evitar que as estocadas lhe arremessem para fora dela. É bem mais primitivo e detenho maior controlo. A pressão do seu rabo no meu abdómen, as pernas contorcidas, os braços retorcidos e pelejados. De certa forma, há menos intimidade. Não existe uma âncora melosa… nada de beijos ou mãos religiosamente dadas. Naquele instante, não estamos ali para fazer Amor. Estamos ali para Foder! Essa força primordial, o momento sobressaído e sobressaltado de inserção, de penetração repetida ao expoente da loucura.

Eu podia senti-La espremendo-se à minha volta, mas tinha perfeita noção que se espremia pelo seu próprio prazer, não propriamente pelo meu. Era algo mutuamente egoístico, e acidentalmente deleitoso para a outra pessoa. Não possuía fôlego para me rir, portanto emiti um som gutural, enquanto subia a minha mão pelas suas costas, perfilhando cada crista da sua espinha dorsal até cercar a sua delicada garganta com as minhas mãos… e espremer. Engasgou-se, gemendo enquanto se contorcia ainda mais, com uma mão arranhando a minha num reflexo natural. Ela espremia-se com maior vigor em torno de mim e podia sentir o seu corpo pulsando em alerta desesperado, cada vez mais próximo da purgação cada vez que investia por Ela adentro. O meu intuito era capturar o seu fôlego quando atingisse o orgasmo, forçando-A a experienciar a plenitude do momento, a singularidade da sensação desprovida de Tudo… até do piloto automático da respiração. Ela arfou uma súplica, algo relacionado com um pedido para não parar, e bafejei um «sim» no seu ouvido como se de uma ameaça se tratasse, velando-A enquanto implodia, esvaindo-se numa sinfonia de espasmos. Todavia, não cessei a investida. O rufo das estocadas permanecia irado e Ela tentava aproveitar as possíveis golfadas de ar que lhe eram concedidas, entre a catadupa de orgasmos, sentindo o ritmo da pressão do meu polegar entre a multiplicidade de ondas que lhe arroubavam.

É tudo uma questão de Controlo, quando a tomo por trás. É tudo uma questão de lhe mostrar onde me encontro e onde Ela pertence. É tudo uma questão de extirpar a afeição da intimidade, forçando-A a aceitar a sua posição. Pois quando Ela é devolvida pelos Céus, eu tombo ao seu lado, aninho-A nos meus braços, repouso a sua cabeça no meu peito, e ali, apesar de atordoados, quedo-me na esperança de que consiga decifrar o que o meu coração diz, através dos meus batimentos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A Física do Arrepio e a Química da Fricção



O radiador crepitou
E recordei
Quando Te elucidei
Que eram apenas moléculas
Que se esfregavam uma na outra
Espremidas uma na outra
Excitadas pelo calor.
Recordei
O Teu fascínio
Sobre a possibilidade
De escutarmos algo tão ínfimo
Como a foda entre moléculas.

Creio que de alguma forma
Neste instante
Algures
Te espremes contra mim…
E a prova reside
Na réplica insana do meu crepitar.

Everybody's Got a Thing


terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Ter ou não Ter, eis a Questão



Cada beijo era como um Adeus e Ela recusava quedar-se com apenas um, cravando os meus lábios com os seus dentes, servindo-se do poder de sucção dos seus lábios, forçando-me a procrastinar antes de a desamparar. O beicinho era o próximo convidado para a parada de artimanhas, de mão dada com o suspiro de queixume… bastante eficazes na invocação de mais um longo beijo, protelando o inevitável. Parecia que de todas as vezes que me começava a afastar, aquela poderia ser a última vez, pois a trepidante propensão para o sadismo ameaçava findar por ali as doces hostilidades do confronto carnal. Deixando-A frustrada com o remanescente… deixando-a pendente… pairando entre possibilidades… insegura, confusa, desesperada. Contudo, igualmente grata! Por cada fragmento meu concedido, pelo gotejamento nutrido, pelas sobrecargas, por soçobrar em prazer. Poderia sossegar a tempestade de conjeturas. Todavia, beijei-A… daquela forma que normalmente representa o preâmbulo de algo, ou o epílogo de tudo… e as suas terminações nervosas ressaltaram pelo estômago, num ricochete que certamente causaria alguma espécie de dano quando findasse.
Ela amava-me por isso. Ela detestava-me por isso.
Ela era Minha por causa disso.

Everybody's Got a Thing