terça-feira, 31 de março de 2015

Garras Precisas



Aposento a média luz e Ela despe-se um pouco depressa de mais… quase se esquecendo da sedução da perseguição, da relevância do atiçamento… do faz-de-conta que não se encontra ali para aquilo… de dissimular uma seleção aleatória de roupa que olvidava ser tão provocante.
Agarra-me pela cintura como se precisasse desesperadamente de mim.
E precisa.
Precisa disto!
Pois a única altura em que se esquece de sentir saudades é quando está aqui… comigo.

Sem Meias Medidas


sexta-feira, 27 de março de 2015

Alvorecida



As manhãs não são excêntricas. Não se revestem com a tonalidade bizarra que nos imerge numa cena rocambolesca. A consciência não se encontra espevitada para chicotadas ou laçadas. O quarto encontra-se reivindicado pelo torpor do sono. Um banho de ouro rasteja pelas paredes. Sob os lençóis, risadas atabalhoadas escoltam dedos, lábios e narizes que se esfregam. Pela manhã, somos animais, funções motorizadas com uma combustão de líbido, enquanto o cérebro chafurda na terra dos sonhos, ajustando-se à realidade afortunada que reflete as prévias emissões noturnas. Uma liberdade repleta de honestidade, embrulhada numa espécie de zelo que desnuda a teatralidade das vestes noctívagas. É tudo mais simples. Menos complicado. Apesar de simpatizar com a complexidade do enredo. A complexidade faz-me vir mais vezes. Faz-me vir com maior pujança. Faz-me morder o ar, com o intuito de devorar os teus gritos. Todavia, as manhãs são sagradas e guardo-as com outra espécie de reverência. São os raios da aurora que penetram pelas fendas da janela e se enleiam no eixo dourado da minha ereção. São a desculpa para mandar foder toda e qualquer introspeção.. fodendo de qualquer forma… fodendo de todas as formas.

Sem Meias Medidas


quinta-feira, 26 de março de 2015

Sua



Por vezes
Após adormeceres
Respiro contra o espelho
Das Tuas costas desnudas
E esboço o meu coração
Na Tua pele embaciada
Pela penumbra.

De manhã
Confessas-me um sonho
No qual Te firmava
Tocava
Cheirava
Fendia
E fodia.

Gosto dessa fragrância
«Sou toda Tua»
Desse aroma
«Usa e Abusa»
Desse perfume
«Algema-me com a tua Vida»
Desse odor
«Lambe esta Pele que sua».

Sem Meias Medidas


quarta-feira, 25 de março de 2015

Abstratizar o Medo



Ela abominava a cor Rosa. Havia-o declarado logo no primeiro encontro, como uma espécie de reivindicação. Era uma sentença conscienciosa, uma aversão que havia adquirido ao longo da sua formação existencialista. A causa não se alocava exclusivamente na coloração, mas também nas conotações da mesma. A associação com feminilidade descomedida, com brandura e estereótipos tingidos em fofura. O cor-de-rosa matizava a fachada dessa sociedade de pitas imbecis e ingénuas. Era a razão pela qual a remuneração das mulheres era inferior. Era o brasão que refletia a disforia feminina.

Há vários tipos de nós para uma gravata. Laçadas que apre(e)ndi com uma mescla de auxílio parental e tecnológico. Demorei o meu tempo com os laços, assegurando-me que não eram apenas apertados, mas igualmente sólidos. Não era minha intenção permitir que meneasse, muito menos que se soltasse. Naquele instante todo o seu corpo era um rolo… um objeto longilíneo para vincar e manipular a meu bel-prazer. O Branco era algo novo para Ela. Representante da pulcritude entre a consciência e a leviandade. Ela pouco se importava sobre aquilo que se passava… deixava-se carregar pelas ondas das minhas ações. E assim fiz… carreguei-A. Através do quarto, além da sala, para o quarto dos penduras… cujas paredes havia transformado numa ode tosca ao quadro “Pink Angels” do sublime Kooning. Uma destilação de cor, dispersada pelas paredes e salpicada pelo chão. Uma reconversão da anterior disposição pérola para aquela cor pútrida, detestável… que A fazia sentir no ventre da reunião de um grupo focal. Contorceu-se entre as amarras, tentando libertar-se em vão. Os nós eram destramente apertados e quando a pousei no solo, temo que o meu sorriso fosse demasiado sádico e resoluto, para Ela sequer congeminar um apelo à minha clemência e sensatez.

A fita na sua boca também não servia de auxílio para um possível apelo. Dei um passo atrás, atentei na súplica dos seus olhos e fechei a porta entre nós. Deixei-A no seu pesadelo cor-de-rosa, petrificada em domesticação. Contudo, não havia sido abandonada. Ela já me deveria conhecer o suficiente, para entender que algures na sordidez daquele quarto, se encontrava um Fio de Ariadne.

Sem Meias Medidas


terça-feira, 24 de março de 2015

Dualidade Onda-Corpúsculo



Ela vinha-se em séries de dois, ao passo que ele demonstrava a soledade de um único momento orgástico. Havia filosofia ali, espaço para Ela trazer à baila a ironia de um sofisma sociológico. Mas a sua mente encontrava-se demasiado turva para qualquer tipo de asserção perspicaz... para qualquer apontamento sobre o confronto entre a dualidade feminina e o estereótipo do desígnio unidimensional masculino.

Everybody's Got a Thing


sexta-feira, 20 de março de 2015

As Intermitências da Voz



Este é o momento para sons guturais, respirações entrecortadas e gemidos abafados. É o momento para as minhas mãos, para a Tua garganta, para linhas negras de lágrimas escorridas, para batom desmaiado e para corrupio sináptico. É o momento para o meu caralho e para a Tua cona e para todos aqueles barulhos chapinhados que conseguimos fazer com eles. As palavras findaram. A Tua voz findou. E quando findar conTigo… quando formos apenas um enorme sorriso ofegante… quando pousares a cabeça no meu peito… quando espremeres a minha ereção com as réplicas de um orgasmo entre os Teus dedos… talvez aí tenha uma ou outra palavra para Ti. Talvez retire essa mordaça e permita que tenhas uma ou outra palavra para mim. Mas até lá, vou despojar todas as palavras do vocabulário dos Teus lábios.

Everybody's Got a Thing


quarta-feira, 18 de março de 2015

O Último Suspiro da Rosa



Segredei à Rosa
Sobre noites como esta.
Sobre o frio
Onde toda a cor
Padece.
Sussurrei-lhe que a própria chuva
Esvaece
Em mantas espessas
Que subjugam
Dobrando-A
Com um peso usurpador
Para as suas pétalas.

Ela gosta destas Estórias…
Sobre flores
Esmagadas
Nos braços do Amor.
Sobre mãos estivais
Tão quentes que escaldam
Trespassando-A
Sob o vestido escarlate.

Ela sonha
Com o tal regaço
Quente
Do Amor inclemente
Que embrulha
Incendeia
Macera
Exsuda.

Ela jorra
O seu perfume a sangue
Pelo viço primaveril
Despindo a sua pele
Atando-se às minhas veias
E agasalhando-se num cobertor
Urdido em Suspiros.

Sem Meias Medidas


terça-feira, 17 de março de 2015

quarta-feira, 11 de março de 2015

sábado, 7 de março de 2015

Ponte



Viajar sozinho, mais do que expandir horizontes, emerge-me no horizonte dos meus desejos.
Gosto do desconhecido. Mas perco-me pela entidade Desconhecida. Por aquele vulto incógnito que descreve uma tangente à minha numa qualquer calçada citadina e me magnetiza pela sua fragrância, pelo seu menear, pela eloquência do seu olhar, pelo livro que traz no regaço, ou pelo laivo enigmático do seu sorriso.
Faz hoje uma semana, que em plena Cidade da Luz, Te avistei.
Encontravas-Te na margem oposta.
Construías inconscientemente uma ponte até mim.
E morri, aliás, soçobrei ao tentar engolir o Sena entre nós.

Sem Meias Medidas


segunda-feira, 2 de março de 2015

Páramo



Arranquei o Pôr-do-Sol
Molhado
Do desfiladeiro
Entre as Tuas coxas
E sob o manto
Cerúleo
Elevei-o aos meus lábios
E bebi.