quarta-feira, 25 de março de 2015

Abstratizar o Medo



Ela abominava a cor Rosa. Havia-o declarado logo no primeiro encontro, como uma espécie de reivindicação. Era uma sentença conscienciosa, uma aversão que havia adquirido ao longo da sua formação existencialista. A causa não se alocava exclusivamente na coloração, mas também nas conotações da mesma. A associação com feminilidade descomedida, com brandura e estereótipos tingidos em fofura. O cor-de-rosa matizava a fachada dessa sociedade de pitas imbecis e ingénuas. Era a razão pela qual a remuneração das mulheres era inferior. Era o brasão que refletia a disforia feminina.

Há vários tipos de nós para uma gravata. Laçadas que apre(e)ndi com uma mescla de auxílio parental e tecnológico. Demorei o meu tempo com os laços, assegurando-me que não eram apenas apertados, mas igualmente sólidos. Não era minha intenção permitir que meneasse, muito menos que se soltasse. Naquele instante todo o seu corpo era um rolo… um objeto longilíneo para vincar e manipular a meu bel-prazer. O Branco era algo novo para Ela. Representante da pulcritude entre a consciência e a leviandade. Ela pouco se importava sobre aquilo que se passava… deixava-se carregar pelas ondas das minhas ações. E assim fiz… carreguei-A. Através do quarto, além da sala, para o quarto dos penduras… cujas paredes havia transformado numa ode tosca ao quadro “Pink Angels” do sublime Kooning. Uma destilação de cor, dispersada pelas paredes e salpicada pelo chão. Uma reconversão da anterior disposição pérola para aquela cor pútrida, detestável… que A fazia sentir no ventre da reunião de um grupo focal. Contorceu-se entre as amarras, tentando libertar-se em vão. Os nós eram destramente apertados e quando a pousei no solo, temo que o meu sorriso fosse demasiado sádico e resoluto, para Ela sequer congeminar um apelo à minha clemência e sensatez.

A fita na sua boca também não servia de auxílio para um possível apelo. Dei um passo atrás, atentei na súplica dos seus olhos e fechei a porta entre nós. Deixei-A no seu pesadelo cor-de-rosa, petrificada em domesticação. Contudo, não havia sido abandonada. Ela já me deveria conhecer o suficiente, para entender que algures na sordidez daquele quarto, se encontrava um Fio de Ariadne.

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