quinta-feira, 30 de abril de 2015

Right Path… Night Path…



Talvez se deva a ter crescido sem a sua presença, mas detesto aparelhos de ar-condicionado… especialmente à noite. Mascaram os sons da noite… fazem-nos fechar as janelas incentivando o desperdício da fragrância noturna. Rapinam o calor do nosso corpo e o respetivo licor afrodisíaco. Deem-me o barulho dos carros, o som de comboios distantes, de relâmpagos longínquos, de sirenes excitadas. Deem-me o cheiro da relva sonâmbula, do orvalho matinal, das flores noctívagas, de Ti. Dá-me o Teu calor, o Teu suor, o lençol da Tua pele. Quero grilos, caninos vampirescos e uivos aluados. Serão sempre os sinais de vida a sossegarem-me a Alma através de um corpo desassossegado.

Sem Meias Medidas


quarta-feira, 29 de abril de 2015

A Tecla Home



Será que Ela se recorda da primeira vez em que a olhou verdadeiramente?
Daquela súbita mutação no seu olhar… do momento em que ele deixou de ter mãos de peluche e passou a ter garras… da forma como A arrastou pelos cabelos da escuridão para a luz, com o intuito de A contemplar…

Quem seria Ela antes do seu olhar? Como lhe definiriam os outros mediante os seus olhares? Os seus olhos tornearam-Na como uma palavra expositiva… como se A formassem… como se Ela fosse uma forma na sua boca… e ele encarregasse os seus dedos, os seus dentes, a sua língua e os seus lábios da sua apresentação… exposta numa tela ebúrnea, que A aparta dos demais mundanos boçais.

Everybody's Got a Thing


terça-feira, 28 de abril de 2015

EdaCidade



Como a boca e as mãos das crianças
Após lhes servirem morangos…
Como o focinho dos leões
Após despedaçarem as suas presas…
Podes constatar pelos nossos rostos
Como deixamos a fome à solta.

Sem Meias Medidas


sexta-feira, 24 de abril de 2015

Nelumbo Nucifera



Se Ela percebesse
Como a sua pele discursa
Sob a brisa vespertina
E a luz crepuscular…

Se Ela atentasse
Na forma como desabrocha
Enquanto flor-de-lótus
De primor insulado…

Entenderia
Como alguns olhos
São bem mais pantanosos
Que o mais lamacento dos rios
Onde não medra beleza.

Sem Meias Medidas


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Quid Pro Quo



Na maior parte do tempo, revezámo-nos. Não por qualquer sentido de dever, ou porque sinto que o equilíbrio cósmico fica enviesado a meu favor. O prazer deriva da transmissão… da perversão fiducial que engrena o nosso quotidiano. Invisto estocadas naquela boca em forma de alvo e quando a sua mandíbula se adapta ao perímetro da minha tesão, tudo aquilo que sinto são lábios roliços e uma língua expedita provocando a minha rendição ao fervor do momento.

Então, quando me sinto gasto, observando-A repleta, tomo-A pelas ancas e arremesso-A para a cama. Se Ela tiver sido boa, sepultarei a minha cabeça entre as suas pernas, sob a guarda da sua exclamatória protuberância. A minha língua não é igual à dela… enquanto a minha se mune da precisão para escoltar pujança sensorial, a dela distingue-se enquanto rebeldia embrutecida. E quando nos degustamos ao mesmo tempo, transformo a situação num jogo. Acampo as minhas mãos no seu rabo e alerto-A que se em algum momento, sentir que a sua atenção escorrega no prazer que lhe concedo, desviando o foco do que está a fazer, receberá uma palmada que a devolverá à premência do presente. Claro que A apresto para o falhanço, mas o que seria dos dias sem o impacto da diversão?

No primeiro dia deste jogo, durou apenas cinco segundos antes da minha mão soltar um eco pelo quarto. Outros dez segundos se seguiram e trovejou o segundo eco. As artimanhas assentavam na arte das manhas que Ela me havia denunciado ao longo das fodas, com contorções instintivas, com gemidos delatores, com sobressaltos que a prostravam à mercê dos meus caprichos. Habitualmente levava o meu tempo, acirrando-A, mas o conceito deste jogo tinha contornos bélicos e o meu intento era sair vitorioso, derrotando-A cabalmente. A língua dEla baqueou ineficaz em torno da minha glande. Tentou apenas sugar, concentrando-se em algo que exigisse metade da sua atenção, mas teve de pausar a sua língua para que um gemido se escapulisse pelos seus lábios. De todas as vezes que fraquejava, a minha mão retumbava nas suas nádegas… que enrubesciam cada vez mais.

Ela veio-se primeiro. Um vendaval de culpa, prazer e travessura conferindo-lhe asas que implicavam o mau presságio de um corvo. Ela sabia que estava encrencada, mas prostrava-se demasiado esvaecida para se preocupar enquanto se vinha e vinha e voltava a vir…
Naquele momento, Ela era Minha… e pessoalmente estava demasiado focado em justificar através daquele tornado de prazer, toda a dor que adViria sobre si.

Everybody's Got a Thing


terça-feira, 21 de abril de 2015

Untada de Luz



Sob a Lua
Os Teus cabelos
São um bosque.
A vila dorme.
As árvores pingam
Um orvalho suado
E as folhas farfalham
Sob as passadas
De um tigre aluado.

Amamo-nos entre feridas
Com línguas cobertas de sal.
Ferozmente.

De manhã
Virão com archotes.
De manhã
Serão incapazes de reconhecer
Qual sangue pertence a quem.

Sem Meias Medidas


segunda-feira, 20 de abril de 2015

Aleg(o)ria da Destruição



Como podem estas mãos
Esvaziar aquilo que Te preenche
Preenchendo aquilo que Te esvazia?

Como pode esta boca
Ruir aquilo que te alicerça
Alicerçando-Te entre as ruínas?

Como podes estar perante mim
Implorando que dispa a Tua fragrância
E Te vista com a minha substância?

Everybody's Got a Thing


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Viagem ao Fundo de Ti



Quero o Passado e o Futuro
No presente do Agora.
Quero-Te enquanto Poço
No qual me debruço
E arremesso pedras
Para averiguar a profundidade
Na qual terei de cair
Antes de me perder
Dentro de Ti.

Sem Meias Medidas


quinta-feira, 16 de abril de 2015

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Nua, Dura e Crua



Há sempre sinais de aviso. Luzes faiscando como estrelas atrás das pálpebras. Aquele Teu olhar intermitente quando vou longe demais. A ameaça de um beco sem saída… a forma como assombra a linha do horizonte... a forma que assombra a linha do horizonte. Tu sabes. Eu sei. E sorrio na periferia. Porque o Medo Te enleva. Porque o conforto é a antítese dos nós… até daquele nó que sentes algures na barriga. O conforto gera a lamechice das borboletas na barriga… amacia-Te paulatinamente, distorcendo-Te o quotidiano através de fábulas surreais. Eu quero-Te aqui! Preciso que proves a Realidade… Nua, Dura e Crua! Não Te desejo confortável. Quero tensão. Quero drama. Quero conflito entre o Amor e o Temor… quero ver quem sai vencedor. Quero retirar a venda que Te cega do quotidiano. Quero ver a derrota espelhada no Teu olhar… a Aceitação… a Beleza. Só depois Te acomodarei, são e salva, no meu colo. Arrebatado pela onda de alívio que Te varre como uma purga… como uma espécie de miasma inebriante que Te deixa ofegante. Quero farejar a Vida que pulsa em Ti e embriagar-me pela catarse na qual Te vens… renascida.

Sem Meias Medidas


terça-feira, 14 de abril de 2015

DizPara



Ele sempre encontrou uma fórmula
Para fazê-La sentir gasta
Como se houvesse sido disparada
Pelo cano de um revólver.
Ele era a arma
Ela era a bala
E quando se consumava o Tiro
Tudo aquilo que restava
Era uma cápsula
Estatelada no solo
A fumegar
Demasiado quente
Para se voltar a tocar.

Everybody's Got a Thing


sexta-feira, 10 de abril de 2015

quinta-feira, 9 de abril de 2015

exCITAÇÕES



(…)

It's always around me, all this noise
But not really as loud as the voice saying
Let it happen, let it happen (It's gonna feel so good)

(…)

All this running around
Trying to cover my shadow
An ocean growing inside
All the others seem shallow

(…)

I heard about a whirlwind that's coming 'round
It's gonna carry off all that isn't bound
And when it happens, when it happens (I'm gonna be holding on)
So let it happen, let it happen

(…)


Everybody's Got a Thing


quarta-feira, 8 de abril de 2015

O Sopro da Querença



O Amor
É uma coligação
Entre ângulos
E vacuidade…
Tal como o vento
E garrafas vazias.

Desconheces o Teu âmago
Até escutares
Os Teus gemidos
Sobre o quão vazia és…

E quão Bela
Pode ser essa vacuidade
Sob os lábios adequados.

Sem Meias Medidas


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão



O zelo maternal advertia:
«Cuidado com os lobos…
Eles conseguem farejar
O leito dos cordeiros
A uma longa distância!»

Mas todas as noites
Ela deitava-se Nua
Despertando pela manhã
Com um odor a Lua
Pois a sua mãe
Jamais considerou
Que não é o Lobo
Quem dorme com o Cordeiro
Mas é o Cordeiro
Quem deve aprender
A correr com o Lobo.

Sem Meias Medidas


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Orgasmos Múltiplos



Para quê parar
Quando cada célula desse corpo
Abriga um pássaro engaiolado
E acabei de escancarar
As portas de todas as gaiolas
Até não restar nada em Ti
Além de uma nuvem de asas
Que nos capeia?

Para quê parar
Sob um manto de asas
Quando podemos ter um dossel
Apenas de penas?

Sem Meias Medidas