sexta-feira, 31 de julho de 2015

Menagerie



«Portanto…», começou por dizer enquanto me olhava pelo espelho, «Antes de fazermos isto, preciso de saber como te comportavas na infância, quando visitavas o jardim zoológico. Eras o tipo de miúdo que se sentava durante longos períodos de tempo a observar cada animal, assimilando atentamente os seus comportamentos, os seus gostos e as suas aversões? Ou eras o tipo de criança que estava sempre em movimento, sempre olhando em frente, fascinado pelos animais mais imponentes e populares?»




«Minha Menina…», respondi-lhe enquanto A aconchegava no meu regaço, «Eu era o menino que chocalhava as grades das jaulas para apreciar a algazarra dos macacos a bater em retirada.»



Everybody's Got a Thing


Foodie… do


quinta-feira, 30 de julho de 2015

Flâneur



Foda-se,
Como Te desejo
Selvaticamente
Como um animal
Indomável
E cheio de dentes.

Foda-se,
Como Te desejo
Sob a vibração casta
Da Era Vitoriana
E sob a convulsão febril
Da Belle Époque.

Um vislumbre do Teu tornozelo
Mata-me.

Sem Meias Medidas


quarta-feira, 29 de julho de 2015

La Petite Mort qui Sourit



Com o auxílio de quarenta pontos
E vinte parêntesis
Desenhaste vinte smiles
Na ponta dos nossos dedos.
Depois,
Uniste as nossas mãos
Fundiste o Teu olhar no meu
E sussurraste:
«Escuta…
Escuta como segredam sobre Nós…»,
Enevoando o olhar, remataste:
«Dizem que me vais foder!».

Lavei então as minhas pinturas
Dentro de Ti
E,
Todas as Tuas
Jazem hoje esborratadas
Ao longo das minhas costas,
Cada uma esvaecida
Nas suas pequenas mortes.

Everybody's Got a Thing


sexta-feira, 24 de julho de 2015

Alice e o Felino



Ela leu Carroll na infância. O que por si só, já é meio caminho andado para invocar a minha consideração. A toca do coelho fascinava-A, tal como o guarda-roupa das crónicas de C.S. Lewis. Representava um ponto de transição, onde a Realidade tombava na Fantasia. A claustrofobia pressagiava uma metamorfose, num afunilamento que precedia o arremesso na vastidão de um glorioso Novo Mundo. A sua minúscula dimensão, todavia, não pretendia comprimir o viajante, mas a sua visão de Casa. Essa encontrava-se sempre no canto do olho da sua mente. Era o buraco no tronco da árvore… o abraço inerte das vestes no guarda-roupa.

Inicialmente, julgava-me o Coelho… e seguia-me para todo o lado. Contudo, ainda havia uma fenda de luz, que lhe iluminava a nostalgia. Embrulhava-A quando se encontrava na presença dos amigos, momentaneamente longe de mim, antes de voltar a tombar pela Toca do Coelho. O que a desconcertava era o facto de começar a ser difícil discernir a Fantasia da Realidade. Sentia que na minha presença havia uma mescla de fascínio e de terror. Eu, signos à parte, era um Touro enraivecido e de alguma forma, em alguns momentos, havia conseguido domesticar-me. Apesar do animal estar sempre presente, chispando no meu olhar enquanto A fodia, queimando na minha mão enquanto A asfixiava na propulsão dos orgasmos.

Tudo o resto, era um passeio pelas vicissitudes do quotidiano, com deambulações por alguns escaparates europeus, com visitas a catedrais de fachada enófila, gastronómica e artística. Era como um passeio pelo Kansas, bem longe da estrada de tijolos amarelos de Oz. A sua desorientação residia em grande parte no erro de julgamento ao emparelhar-me com a personagem do Coelho. Se tivesse prestado a devida atenção ao sorriso malicioso que aparecia e desaparecia do meu rosto, durante as conversas iniciais, teria imediatamente constatado que se encontrava na presença do Gato de Cheshire no seu próprio País das Maravilhas.

Everybody's Got a Thing


Foodie… do


quinta-feira, 23 de julho de 2015

Uma Pausa, Kitty Kat



Se tiveres um minuto
Faz-me um favor
E afasta-Te do meu pensamento.
Veste umas roupas
E dá uns passos atrás
Para que não Te consiga farejar
Para que não Te consiga provar
Para que não Te consiga mirar
De todas as vezes que pestanejar.
Tenho algumas tarefas por acabar
E há um Dress Code,
Se é que me entendes…

Obrigado…
Mais uns passos, se faz favor…
Mais um pouco…
Obrigado!
Agora não Te movas…
Que eu não me demoro.

Sem Meias Medidas


terça-feira, 21 de julho de 2015

ArFada



«Não te atreverias.»
Aquelas palavras não poderiam mostrar pinga de arrependimento, porque se Ela tivesse a mais leve compunção, jamais as teria vertido dos seus lábios, nem sequer teria a audácia para liberar um sorriso malicioso.
A minha mão encontrou o seu pescoço como um touro choca com o seu matador e Ela voltou a enrubescer. As suas roupas eram uma pilha olvidada no quarto ao lado… uma armadura que havia sido rendida antes da perigosa investida. Os meus dedos comprimiram. Ela engasgou-se.
«Não?», claro que a chacoteava e validava desta forma a sua irritação. Uma irritação contraproducente com a forma como esperneava. Uma irritação contraproducente com as pulsações que reverberavam entre as suas coxas. Virou a cabeça na direção da parede, numa vã tentativa para camuflar um sorriso. Eu não A conseguiria quebrar. Não tinha as ferramentas necessárias. Aumentei então a pressão na traquéia. Voltou a espernear, só que desta vez, o lábio inferior trincado não refletia excitação.

«Eu fiz-te uma pergunta, Minha Puta!», apliquei mais pressão. Ela deveria começar a sentir os pulmões a queimar. Uma mão aflita despontou, pousada nos meus dedos. «Pedi-Te para repetires a injúria. Dizeres “seu cabrão”, mesmo num contexto libidinoso, é infinitamente mais injurioso que dizeres “Meu Cabrão”. Volta a cometer esse erro e verás o que Te acontece!»
A frieza na minha voz era desconcertante, pois tinha como propósito colocar em alerta qualquer displicência. Ela certamente meditaria com maior atenção no teor das minhas palavras, caso a sua maior preocupação não fosse restabelecer o fluxo de ar que lhe havia sido cortado.

Subitamente libertei-A… apenas o suficiente para A deixar respirar. Sorveu longas golfadas de ar, devorando-as com um olhar de indigestão. A mão pousada nos meus dedos perdeu o frenesim. Levou o seu tempo, recuperou lentamente a compostura e encarou-me com um misto de languidez e repto.
Olhei-A de volta.
Segundos, pareceram horas.

«Não te atreverias!»

Estrangulei imediatamente todo o seu escárnio, enquanto a vi-A estreitar os lábios, revirar os olhos e arremessar a cabeça para trás, perdendo-se no tornado da minha fúria. A minha outra mão esbofeteou tudo ao longo da descida vertiginosa… com ferroadas na lateral das suas mamas, nos seus mamilos, nas suas coxas, no seu rabo e finalmente, naqueles lábios rosados, inchados e melados, provocando-lhe a submissão do derradeiro recurso de fôlego.
Essa mão, todavia, não se quedou por aí. Os dedos esfregavam, puniam, invadiam-na e enroscavam-se dentro dEla, preenchendo-A até espremer todas as suas pulsações, enclausurando-A numa névoa ofegante que a fazia levitar em direção ao teto.
Quando finalmente pude desatar a opressão, tombou arfada de regresso aos lençóis, esmagada pelo peso do oxigénio precioso e olhando-me em contrapicado através de lágrimas engasgadas.
Eu sorria.
Ela também… bem lá no fundo.

Sem Meias Medidas


sexta-feira, 17 de julho de 2015

Sim



Ela embrulha as pernas em torno da minha cintura.
Sussurra no meu ouvido:
«Fica.»
Esta é a minha deixa para A beijar. Para enfiar os meus dedos nos seus cabelos ou embrulhá-los à volta do seu pescoço. Com força... apenas a suficiente para senti-La pulsar.
Ela nunca estará assim tão vulnerável, mas neste instante, a sua confiança encontra-se depositada e despida na palma da minha mão.
Esta é a minha deixa para puxá-La contra mim.
Para colocar gentilmente um polegar no seu lábio inferior e inspirar todo o seu fôlego.
«Fica… Fica!», implora-me.
Não lhe direi um «Sim»… beijá-La-ei com um «Sim»… fodê-La-ei com um «Sim».

Everybody's Got a Thing


Hotel Chevalier






quarta-feira, 15 de julho de 2015

Corpos Celestes



Li algures que Plutão e a sua lua Charon escaparam, de alguma forma, aos grilhões de Neptuno. Os dois possuem massas tão semelhantes que não há uma dominância gravitacional de Plutão sobre Charon, logo puxam-se um ao outro com tal força que o eixo de rotação se encontra fora da superfície de Plutão… é como se ambos fossem satélites naturais de um "vazio", girando em torno de um centro onde não há qualquer corpo celeste… sendo caso único no Sistema Solar.

Saramago dizia que passamos demasiado tempo a olhar para cima e olvidamos o que se passa à nossa volta. A Razão está do seu lado. Mas a Emoção, igualmente necessária, provém deste tipo de descobertas… das manifestações de magia em escaparates aparentemente inanimados… da constatação que o conceito “À Nossa Volta” é demasiado abrangente se considerarmos o quadro geral da Existência.


Plutão e Charon decidiram fugir para estarem juntos, longe de tudo e de todos… dançando felizes na escuridão para todo o sempre.

Everybody's Got a Thing


Epicurista, me confesso


terça-feira, 14 de julho de 2015

Perdida(Mente)



Ela afasta parcialmente o tecido dos seus ombros. A Sua pele é a minha alvorada privada. Debruça-se para mim. Sem uma palavra. Durante um nanosegundo, aquelas pestanas ocultam o seu olhar revirado. O sorriso delator escolta os dedos expositores da excitação urdida com filamentos translúcidos. E aqueles dentes fodidos decidem aparecer, para escarnecerem libidinosamente do meu «Foda-se!». Com a ponta dos meus dedos, escrevo-lhe todos os poemas que consigo grafar. Todo o Desejo e toda a Esperança. Pelas suas costas abaixo, pelo seu decote abaixo… soçobrado no rio entre as suas pernas. Assino o meu trabalho com um beijo soprado e deito-A pela minha noite. Aconchego-A. Ela aninha-se e suspira um «Perdido»… que é por demais eViDente.

Everybody's Got a Thing


segunda-feira, 13 de julho de 2015

exCITAÇÕES




(…)

Down on the West Coast they got a sayin'
«If you're not drinkin' then you're not playin'»
But you've got the music, you've got the music in you, don't you?

(…)

You push it hard, I pull away,
I'm feeling hotter than fire
I guess that no one ever really made me feel that much higher

(…)






P.S.: Lana… Lana…

Sem Meias Medidas