sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Sobre a Beleza e Sob a Beleza



A Beleza não é apenas cabelo comprido, pernas esguias, pele bronzeada e dentes imaculados. Beleza é o rosto de quem chorou e agora sorri. Beleza é a cicatriz no joelho, que Te relembra uma queda na infância. Beleza são as olheiras quando o Amor não nos deixa dormir. Beleza é o cabelo despenteado e o olhar esgazeado quando o despertador toca. Beleza é o rasto da maquilhagem na Tua face, debaixo do chuveiro. Beleza é não negligenciar o corpo, para extasiar diariamente a libido de quem conhece a nossa pele de lés a lés. Beleza é cultivar o intelecto, para não permitir o esmorecimento de qualquer conversa. Beleza é a gargalhada quando Te ris das Tuas próprias piadas, sem ninguém Te entender. Beleza é derreter um olhar noutro olhar. Beleza é quando tens um Lar que Te aguarda no final de cada dia. Beleza são as linhas que o tempo nos esculpe. Beleza é o Teu suspiro quando tombas o corpo numa cama feita com lençóis lavados. Beleza é aperceberes-Te que a vida não é uma tarefa. Beleza é assimilares que a Estrada é o objetivo e que estás sempre na Estrada, não para atingir um objectivo, mas para apreciares a Beleza de seres um objetivo, tornando a Existência natural, fluída e arrebatadora. Beleza é permitires-Te viver… a Ti própria.

Everybody's Got a Thing


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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O Brasão da Adolescência



Os nossos beijos sabiam a cerejas angustiadas. Será que ainda te lembras como tremíamos de mãos dadas quando o fogo-de-artifício estourava no céu? As nossas mentes baqueavam, lábios inchavam e havia pele sussurante entre dedos. Tirei fotografias instantâneas com os meus olhos, sem recorrer à velinha Polaroid. Emoldurei-te com a anca guardada pela minha mão.
Lembro-me de comentar acerca da suavidade das tuas coxas enquanto o rádio passava canções que prometiam futuros. No parque de estacionamento do supermercado, beijei-te apressadamente no carro antes de correr para comprar preservativos e um gelado. Sempre partilhamos a mesma colher com línguas avidamente debruçadas, mesmo depois de ter viajado pelos arrepios do teu corpo escaldado.

Mas tudo findou, há muito. Tudo finda. Apesar daquela adolescência aturdida em quimeras, sempre te instruí sobre a maior verdade velada da sociedade: A solidão é uma escolha. Tudo se resume ao nível de conforto que temos connosco próprios quando estamos silenciosamente sozinhos. Lembrava-te que os amantes de livros nunca vão sozinhos para a cama. Sugeria-te jocosamente que nos momentos em que te sentisses só, experimentasses ver um bom filme de terror… pois passado alguns instantes, deixarias de te sentir sozinha. Os olhares buscam outros horizontes. O gelado derrete. A colher fica sem lavar. Os carros vão parar à sucata. As canções ferem, dolorosamente belas, com o passado. Outras mãos serão levadas e lavadas sob o luar. Mas jamais as retenhas como um escape. Reconhece-as como brasões, apesar de nunca voltares a olhar para gelados derretidos na pele e para o fogo-de-artifício da mesma forma.

Sem Meias Medidas


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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

exCITAÇÕES



(…)

You can holler, you can wail
You can swing, you can flail
You can fuck like a broken sail
But I'll never give you up
If I ever give you up my heart will surely fail

(…)

You can holler, you can wail
You can blow what's left of my right mind
You can swing, you can flail
You can blow what's left of my right mind
(I don't mind)

(…)


Foodie… do


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terça-feira, 25 de agosto de 2015

Florilégio



Os livros acomodam-se na minha estante como um refrão existencial, onde cada palavra é como um comentário ambíguo para cada ação, onde cada frase é como uma sentença e onde cada parágrafo é como um aplauso de resolução.
Mas há confusão, nesta relação.
Tudo porque apesar de me projetar em muitas daquelas linhas de texto, eles também me usam como tela ebúrnea para a sua própria ribalta. Somos um armário de ingredientes, debaixo de uma saraivada de disparos que tencionam mesclar sabores até que algum ressoe alguma espécie de epifania. Como a ondulação do cabelo de uma rapariga na altura do liceu, onde cada brisa antológica surge perfumada algures entre a fantasia, a realidade e a memória… sem capacidade para distinguir se tudo não passa de reminiscência hiperbólica.
Os meus livros são autênticas ratoeiras, preparadas para Te capturar e fazer contorcer. E não conseguirás resistir à bisbilhotice, minha doce roedora, pois cada um deles é uma janela que Te permite espreitar a minha mente. Pois então, esperneia com Lawrence. Dança com Joyce. Fica enciumada com Atwood. Perde-Te nos mosaicos de McCann. Sorri com Eliot, que ele certamente sorrirá conTigo. Mira furtivamente Poe. E fica inquisitiva quando encontrares Miéville emparelhado com Gaiman.
Cada Livro tem uma história, e cada história tem algo sobre mim.
Talvez descubras, que também tem algo sobre Ti.

Everybody's Got a Thing


13 Dias para Carícias Solstícias...


terça-feira, 18 de agosto de 2015

A Eternidade Física de uma Paixão



Há sempre uma primeira vez, com a mesma pessoa, ao longo do tempo que desejarmos.
E não me refiro à intervenção da criatividade de uma qualquer atividade, nem à previsível deambulação por novos sabores, por novos aromas ou por novos escaparates. Refiro-me à primeira vez que a maioria deduz como algo finito e repositório da memória.

Apesar de envelhecermos, já paraste para pensar no ciclo de renovação constante das nossas células? Os cabelos e as unhas crescem, a pele escama, a memória evapora, os ossos erodem. As células de diferentes órgãos e tecidos renovam-se com ritmos diferentes, dependentes da intensidade e do desempenho de cada função. Todavia, a cada sete anos (em média), as células de todo o meu corpo serão destruídas e substituídas por novas células.
Como vez, um dia, terei um novo corpo para voltares a tocar pela primeira vez.

Sem Meias Medidas


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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Véu Palatino



Há dez anos, não era assim tão trivialmente propalado o deleite masculino pela arte da confeção gastronómica, portanto, quando descobriu que iria cozinhar para Ela reagiu com redobrado fascínio. Queria observar-me a converter a mescla de ingredientes numa refeição, fundidos e borbulhados uns nos outros até deixarem de ser borrego, cominhos, ras el hanout, sementes de coentros, pimenta-caiena, tomates, sultanas, cebola, alho, sal, pimenta-preta e alecrim. As identidades soçobradas na ebulição, até abdicarem das individualidades em prol de um todo, algo novo, diferente e delicioso.

Atentei no seu rosto quando deu a primeira dentada, deixando as especiarias cravarem o ardor na sua língua, esbofeteando-lhe as papilas gustativas, numa primeira investida de endorfinas que lhe ruborizaram a face. Não era algo assim tão divergente do nosso hábito sexual… apenas havia transferido a localização da dor.

Uma hora mais tarde, a ferroada picante ainda latejava nos seus lábios. Ainda conseguia provar Marraquexe no seu hálito, quando trouxe os ingredientes para o meu quarto. Só que agora, a investida de endorfinas teria outro género de ruborização, quando lhe recheasse com todo o meu apetite voraz. Agora, seria a sua vez de estufar, lentamente. Iria borbulhar, ferver e transbordar... em algo novo, diferente e delicioso. 

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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Verbo de Ligação



E se Te dissesse
Que sabes a pêssegos
Que comi num mercado forasteiro
Antes de beijar alguém que não eras Tu?
E se Te dissesse
Que de noite cheiras a jasmim
Evocando o canteiro da minha infância
Que desabrochava sob o luar
No beiral da janela do meu quarto?

E se toda a Tua vida
Se tornasse uma demanda
Para assimilar
Como deslizas tão graciosamente sob os meus lençóis
Como resvalas nas entrelinhas de todas as páginas da minha existência
Como desejo ser o sujeito do Teu pensamento
Como desejo ser o sujeito do Teu predicado
E como sempre Te vivi desde que nasci
Enquanto Presságio de um Amor.