quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O Brasão da Adolescência



Os nossos beijos sabiam a cerejas angustiadas. Será que ainda te lembras como tremíamos de mãos dadas quando o fogo-de-artifício estourava no céu? As nossas mentes baqueavam, lábios inchavam e havia pele sussurante entre dedos. Tirei fotografias instantâneas com os meus olhos, sem recorrer à velinha Polaroid. Emoldurei-te com a anca guardada pela minha mão.
Lembro-me de comentar acerca da suavidade das tuas coxas enquanto o rádio passava canções que prometiam futuros. No parque de estacionamento do supermercado, beijei-te apressadamente no carro antes de correr para comprar preservativos e um gelado. Sempre partilhamos a mesma colher com línguas avidamente debruçadas, mesmo depois de ter viajado pelos arrepios do teu corpo escaldado.

Mas tudo findou, há muito. Tudo finda. Apesar daquela adolescência aturdida em quimeras, sempre te instruí sobre a maior verdade velada da sociedade: A solidão é uma escolha. Tudo se resume ao nível de conforto que temos connosco próprios quando estamos silenciosamente sozinhos. Lembrava-te que os amantes de livros nunca vão sozinhos para a cama. Sugeria-te jocosamente que nos momentos em que te sentisses só, experimentasses ver um bom filme de terror… pois passado alguns instantes, deixarias de te sentir sozinha. Os olhares buscam outros horizontes. O gelado derrete. A colher fica sem lavar. Os carros vão parar à sucata. As canções ferem, dolorosamente belas, com o passado. Outras mãos serão levadas e lavadas sob o luar. Mas jamais as retenhas como um escape. Reconhece-as como brasões, apesar de nunca voltares a olhar para gelados derretidos na pele e para o fogo-de-artifício da mesma forma.

8 comentários:

  1. "Nothing remains the same."

    Por mais cruel que esta frase possa ser é a mais pura das verdades... e realmente só é feliz quem se sente bem com a sua solidão. Às vezes, a minha faz-se presente... tem graça que adoro ver filmes de acção, terror e afins nessas alturas... excelente sugestão!!


    Distante daqui... jamais esquecida!!
    Beijocas boas em ti

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    1. Um beijo Sil!
      É bom saber-te por aí :)

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  2. Este teu texto está tão bom!
    Utilizaste uma linguagem simples, bonita e ao mesmo tempo forte. E faz pensar nalgumas coisas que mais ou menos perpassam a vida de todos nós. Vou só trazer aqui uma: a solidão. Estar só é uma escolha. Já a solidão, se for escolha, julgo que o será apenas para uma minoria. O facto de deixarmos quem esteve connosco mas já não nos preenche não é uma escolha que tenha implícita a noção abrangente de liberdade, mas uma questão de coerência com os nossos valores e posicionamento.
    Mas considero fundamental cultivar alguns momentos em que se está só.
    Gostei que me tivesses levado a pensar nisto.
    Beijo

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    1. Cada cabeça, sua sentença.

      Um beijo, sempre agradecido pela tua permanente amabilidade.

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  3. A memória é realmente admirável.
    Muito bonito de ler.

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    1. É um daqueles tesouros que infelizmente damos como garantido, mas infeliz não o é. E não é preciso estar ligado ao ramo da saúde para assimilar esta realidade.

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